Uma questão de vida ou de morte

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©Ricardo Perna 2012/Familia Cristã / Abertura do Átrio dos Gentios em Guimarães.

Neste momento, o polémico cartaz do Bloco de Esquerda com a imagem de Jesus Cristo e a frase “Jesus também tinha 2 pais”, com o intuito de celebrar aprovação da lei de adopção por casais homossexuais, é tão-somente espuma dos dias. A ordem do dia, no debate público, mais uma vez protagonizado pelo Bloco, é a legalização da morte assistida, a eutanásia. Matéria que consta da agenda bloquista desde 2011.

Pura coincidência ou não, data desse mesmo ano um número da publicação “Observatório da Cultura”, da responsabilidade do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), inteiramente dedicado às respostas de 28 personalidades do mundo da Igreja e da cultura em Portugal à questão: “O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?”. Resgatamos da publicação duas respostas — uma de João Carlos Seabra Pereira e outra de Simão Lucas Pires — que pela a sua actualidade e pertinência questionam o papel, a responsabilidade e contributo da Igreja na configuração da cultura portuguesa. Além do mais, as respostas constituem todo um programa de acção ainda à espera de concretização e denunciam uma inércia eclesial difícil de justificar.

Para Seabra Pereira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e desde 2014 director do SNPC, a Igreja tinha de passar de uma atitude reactiva e defensiva, sujeita à condescendência dos media ou dos acontecimentos adversos, e “passar à ofensiva’ (…) isto é, tomar sistematicamente a iniciativa do discurso de interpelação e de proposta nos meios académicos, filosóficos, científicos e artísticos”. Uma outra proposta avançada, era a de “activar novos e eficazes meios de visibilidade no espaço público, conquistando maiores efeitos de presença e de afirmação, de motivação e adesão”. A terceira “urgência maior” que João Seabra identificava era “tornar efectivo e contínuo (…) o papel dos leigos intelectuais na vida da Igreja, abrindo-lhes novos órgãos de reflexão e opinião e novos domínios de intervenção, num processo que poderia ter por marco fundacional a realização (…) de um grande Congresso que convocasse pensadores, cientistas, artistas, escritores e jornalistas”.

Por sua vez, Simão Lucas Pires, na altura estudante e agora investigador, respondia que o tempo que vivemos desafia a Igreja a colocar “no centro da nossa suposta comunidade, uma interrogação que nos é comum a todos: o que somos enquanto homens”, o “assunto que dá razão de ser ao discurso”. O papel dos crentes “é não compactuar com este esvaziamento, com esta desistência em relação à única coisa urgente. Não promover a cultura morna na qual, apesar dos tons de voz, dos prémios e da gravidade cuidadosamente encenada, nada está em causa. A Igreja não pode ficar satisfeita com um cenário onde o lugar da verdade é o canto a que ninguém liga e a inquirição acerca do homem é uma forma de entretenimento tão insignificante como todas as outras”.

Nos próximos tempos, com o debate sobre a eutanásia e proximamente da barriga de aluguer (eufemisticamente denominada de maternidade de substituição), entre rasgar as vestes e gritar “blasfémia” ou intervenções a pedir desculpas porque Deus existe, há uma questão que se nos impõe: o que é que andamos a fazer nestes últimos 5 anos? Uma questão de vida ou de morte, como é fácil de entender.

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