Tagged: Sínodo da Família

Amoris Laetitia

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Publicado no Suplemento Igreja Viva (21/04/2016) do Diário do Minho]

Nota prévia. A Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (Alegria do Amor) arrisca-se a ser mais um daqueles textos que todos citam mas que poucos leram. O que se segue é apenas convite à leitura integral do documento. Continue reading

Nem sim, nem não. Caso a caso

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[publicado no suplemento Igreja Viva (29.10.2015) do jornal Diário do Minho]

Cinco dias passados da conclusão do Sínodo da família, já todos percebemos que não ficou tudo igual nem tudo na mesma. Mesmo com todas as tentativas confrangedoras, diga-se de passagem, de minimizar o significado e o alcance do documento final. A aprovação dos parágrafos 84, 85 e 86, que dizem respeito ao discernimento e integração dos divorciados recasados, caso a caso, com a maioria qualificada de dois terços, foi rapidamente alvo de desqualificação por uma minoria, essa sim, supostamente qualificada. A desvalorização do êxito da votação final é fácil de explicar e de entender. Não há empate técnico que salve a face de quem entrou na lógica de vencedores e vencidos ou da famigerada metáfora do sínodo como se de um jogo de futebol se tratasse. Já para não falar de algumas crónicas pejadas de ironia corrosiva de fazer corar qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e que tinham como alvo famílias feridas pelo divórcio. Mas também houve quem imprudentemente se apressasse a apresentar as conclusões do sínodo, antes mesmo de entrar na aula sinodal. Atitude que além de manifestar um claro deficit de diálogo ignora o significado de uma igreja sinodal que o Papa Francisco define como: «uma Igreja da escuta, ciente de que escutar “é mais do que ouvir”. É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, “o Espírito da verdade” (Jo 14, 1), para conhecer aquilo que Ele “diz às Igrejas” (Ap 2, 7). Continue reading

Sem vencedores nem vencidos

[publicado no suplemento ‘Igreja Viva’ (23.10.2014, p. 2) do jornal Diário do Minho]

Desengane-se quem pensa que a primeira fase do sínodo da família finalizou no Domingo passado com a beatificação do Papa Paulo VI. Fora da aula sinodal, em ambiente mais distendido, mas sempre focalizado sobre as questões pastorais difíceis, o debate continua. Nesta segunda-feira passada, os cardeais Reinhard Marx, Luis Antonio Tagle, Velasio de Paolis e Mauro Piacenza, marcaram presença na imprensa italiana e as suas posições fazem prever um ano intenso para a Igreja.

No centro do debate o parágrafo 52 da Relatio Synodi — relatório conclusivo da primeira etapa do sínodo constituído por 62 parágrafos — que abre a possibilidade dos divorciados recasados poderem comungar. Não uma abertura generalizada a todos os casos mas a “algumas situações particulares e condições bem precisas, sobretudo quando se trata de casos irreversíveis”. Isto depois de “um caminho penitencial sob responsabilidade do bispo diocesano”. O parágrafo não obteve a maioria qualificada de dois terços dos votos, mas foi aprovado pela maioria e faz parte do documento final. Continue reading

Ousadia e liberdade de expressão

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[texto publicado no jornal Público, 20.10.2014, p. 6]

Creio que nunca a designação de Assembleia Extraordinária foi tão apropriada para qualificar o sínodo dos bispos sobre família. Nisto, estou certo, até os padres sinodais estarão de acordo. Mas o que é que faz deste sínodo um momento extraordinário na vida da Igreja? A possibilidade de todos participantes falarem claro, sem hesitações e sem medos, “a ousadia da franqueza” tal como o Papa Francisco pediu na abertura dos trabalhos. Continue reading

Entre o matrimónio indissolúvel e a misericórdia

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[Tradução livre do texto ‘Tra matrimonio indissolubile e misericordia’, de Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bose, publicado hoje (12.10.2014), no quotidiano italiano ‘La Stampa’, pp 1 e 25]

Logo depois da eleição do papa Francisco, o cardeal Ravasi declarou: “Respira-se um novo ar há muito esperado”. Hoje, depois de vinte meses de pontificado, podemos dizer que se criou um outro clima no tecido eclesial: um clima de liberdade expressão no qual, com parrésia, cada católico, bispo ou simples fiel, pode deixar falar a sua própria consciência e dizer aquilo que pensa, sem ser logo reduzido ao silêncio, censurado ou até mesmo punido, como acontecia nos últimos decénios.

Isto não significa um clima idílico, porque os conflitos, alguns mesmo duros, estão presentes no seio da Igreja — como já testemunhado nos escritos do Novo Testamento — mas se estes forem vividos sem excomunhões recíprocas, se cada um escutar as razões do outro sem fazer dele um inimigo, se todos procurarem manter a comunhão, então, até mesmo os conflitos são fecundos e servem para aprofundar e dar razões das esperanças que abitam o coração dos cristãos.

Infelizmente pode-se constatar que já há “inimigos do Papa”: pessoas que não se limitam a criticá-lo com respeito, como acontecia com Bento XVI e João Paulo II, mas chegam ao ponto de desprezá-lo. Um bispo que diz aos seus padres que a exortação apostólica Evangelii Gaudium “poderia ter sido escrita por um lavrador” exprime um juízo de desprezo, mas profeticamente declara que aquela carta é legível e compreensível até por um pobre e simples cristão da periferia do mundo. Assim, além das intenções, aquelas palavras de desprezo constituem um elogio. Alguns acrescentam, para deslegitimar a eleição de Bergoglio, que o conclave não decorreu segundo as regras, outros sustentam que há dois papas, os dois sucessores de Pedro mas com funções diferentes… Há muito que conhecemos estas pessoas mais propensas a seguir as próprias hipóteses eclesiásticas do que a objectividade da grande tradição católica na qual vale o primado do evangelho. Continue reading

O Sínodo dos Média e o Sínodo dos Bispos

Há uma euforia mediática em torno do sínodo da família. Uma euforia compreensível tendo em conta que o assunto tratado e a expectativa gerada, em particular no que diz respeito à possibilidade da readmissão dos divorciados recasados aos sacramentos, toca milhões de pessoas. Depois, porque os protagonistas deste sínodo puseram em prática uma verdadeira campanha mediática. Falo em concreto, e apenas a título de exemplo, das inúmeras entrevistas que Walter Kasper deu, com o objectivo de esclarecer a sua posição no último consistório, e do livro escrito por cinco cardeais, com o cardeal Müller prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé à cabeça, publicado há pouco menos de um mês e intitulado “Permanecer na Verdade de Cristo”, onde os autores se manifestam contrários a admitir os divorciados recasados à comunhão. Em suma, um debate bipolarizado e afunilado, se não mesmo entrincheirado, entre prós e contras e/ou “progressistas e conservadores”, como alguns preferem categorizar. Continue reading

Sínodo da Família: a colegialidade posta à prova

Caminhamos a passos largos para aquele que é um dos acontecimentos mais esperados pela Igreja Católica nos últimos anos: a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos dedicada às questões da família que terá lugar no Vaticano de 5 a 19 de Outubro. O tema sempre esteve no coração da Igreja, mas assumiu especial relevo e expectativa desde o momento em que o cardeal alemão Walter Kasper, no consistório de 20 e 21 de Fevereiro, apresentou uma proposta que abre a possibilidade da admissão dos divorciados recasados à comunhão. A proposta de Kasper lançou o debate, fez correr muita tinta e rapidamente se polarizaram as posições “pró” e “contra”, com os purpurados Kasper e Müller, actual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a serem colocados como bandeira de uma e outra posição, respectivamente. Continue reading