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Papa Francisco define agenda internacional

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[publicado no suplemento Igreja Viva (24.09.2015) do jornal Diário do Minho]

Uma nota prévia. Tinha em mente escrever sobre a viagem apostólica do Papa Francisco a Cuba e aos Estados Unidos. Afinal, este é assunto religioso da actualidade. Mas, convenhamos, o sucesso das viagens estava garantido antes mesmo do avião papal descolar. A viagem a Cuba foi, essencialmente, um momento celebrativo da diplomacia vaticana que, sob a batuta de Francisco, facilitou a restabelecimento das relações diplomáticas entre Havana e Washington. Já no que diz respeito à viagem aos Estados Unidos, essa sim com mais motivos de interesse, quer a nível político quer religioso, a festa inicia com a família Obama a estender a passadeira vermelha a Francisco, ao recebê-lo na base aérea militar de Andrews. Uma honra reservada a convidados muito especiais. É certo que os discursos na ONU e no Congresso — onde pela primeira vez um papa discursará — bem como a homília na missa de encerramento do Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, estão a gerar grandes expectativas. A recepção à encíclica Laudato Si, da parte da direita política estadunidense, não foi de todo positiva Continue reading

Jovens, pirotecnia pastoral e lábios cheios de sede

selfie-papa[publicado no suplemento Igreja Viva (17.092015) do jornal Diário do Minho]

Já não me lembro bem do que falávamos, mas recordo a pergunta do padre Álvaro que veio a talhe de foice: “Qual é a missão de um pároco?”. Após um longo silêncio e uma expressão facial de quem não faz a mínima ideia da resposta, o irmãozinho de Charles de Foucauld lá veio em meu auxílio: “evangelizar duas gerações de jovens”, respondeu ele.

O padre Álvaro bem sabe do que fala. Pelas mãos deste antigo formador de candidatos ao sacerdócio, em Itália, e ex-pároco, já passaram centenas jovens e a alguns conquistou para Cristo. Continue reading

Arcebispo de Braga tem razão e os políticos não estão errados

Jorge-Ortiga1A passada semana foi, anormalmente, política e religiosamente inspiradora. «Espero não ser castigado pelo meu pároco por dizer isto, mas não deixarei que os meus bispos, os meus cardeais ou o meu Papa me ditem a política económica» disse Jeb Bush, quando questionado sobre a recente encíclica do Papa Francisco, na abertura oficial da sua campanha à presidência dos Estados Unidos. Jeb Bush é um católico convertido há 25 anos, irmão de George Bush, ex-presidente dos Estados Unidos, e um dos candidatos do Partido Republicano à Casa Branca.

 

No mesmo dia, quarta-feira, 17 de Junho, Paulo Rangel, católico e eurodeputado do PSD, apresentou no Porto, mais concretamente no Palácio da Bolsa, o livro Jesus e a política: Reflexões de um mau samaritano, e pregou, segundo reza a crónica do Público, um Jesus que «não tinha projecto político, mas era um provocador político». Sexta-feira, D. Jorge Ortiga, na apresentação à comunicação social da Laudato Si, cometeu o «atrevimento», nas palavras do Arcebispo, de propor aos partidos políticos que incluíssem as preocupações da encíclica nos programas eleitorais das legislativas. As declarações feitas à RTP foram replicadas na página do Facebook da Arquidiocese e suscitaram um animada discussão na rede social, provocada por católicos e não católicos que questionam a legitimidade da Igreja «se meter em política ou economia». Continue reading

Encíclica Laudato Si ou a parábola de Lázaro e o homem rico

É necessário recuar a 25 de Julho de 1968, data em que foi publicada a encíclica sobre a regulação da natalidade, Humanae Vitae, escrita por Paulo VI, para se encontrar tanta expectativa, polémica e contestação em torno de um documento papal. A encíclica ecológica Laudato Si (Louvado sejas) do Papa Francisco, publicada hoje, entrará para a história como sendo a primeira a ser duramente criticada antes mesmo de o texto ser conhecido.

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Se a vida te dá limões, faz limonada

FranciscoFamilia_LOsservatoreRomano“Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. O incipit do clássico da literatura Anna Karénina de Lev Tolstoi é tomado a sério pelos jornalistas no momento de noticiar a família. As famílias “normais” raramente são notícia e nunca abrem telejornais. Esse espaço está reservado para as “disfuncionais”. Em termos mais prosaicos, em jargão jornalístico, a expressão anglo-saxónica “Bad news is good news” (más notícias são boas notícias) sintetiza bem a frase que só a mestria e a genialidade de Tolstoi podiam cunhar. Continue reading

Sê misericordioso, confessa os teus pecados e reza

12f84-papa“Sê misericordioso, confessa os teus pecados e reza”. A frase é do vaticanista Andrea Gagliarducci e aparece-nos num texto comemorativo dos dois anos da eleição do Papa, onde questiona se a misericórdia não será o verdadeiro rosto da “revolução” de Francisco. Escreve o vaticanista: “talvez o Papa tenha convocado o Jubileu com o objectivo de fazer passar esta mensagem: sê misericordioso, confessa os teus pecados e reza. É deste modo que se realiza a conversão dos corações, e não através de agendas (seculares ou não) que tentam dar a este pontificado uma direcção diferente da de Francisco”. Continue reading

Um novo Papa, uma nova Igreja? Pe. Alberto Brito, sj

A 26 de Março de 2013, treze dias após a eleição do Papa Francisco, três jornalistas que cobriram o conclave — António Marujo, Joaquim Franco e Manuel Vilas Boas — promoveram o  Encontro “Um novo Papa, uma nova Igreja?”, que teve lugar no Centro de Estudos Sociais-Lisboa.

Entre os oradores encontrava-se o P.e Alberto Brito, na altura provincial da Companhia de Jesus em Portugal. Dois anos após, a reflexão do Pe. Alberto apresenta as chaves fundamentais para interpretar o pontificado do Papa Francisco e de como se processam as reformas na Igreja e em Igreja. Vale a pena ouvir. Deixo algumas frase para aguçar o apetite:

“Há uma triangulação que transversalmente percorre toda a história da Igreja que é o carisma, a autoridade e a missão”.

“As mudanças superficiais são rápidas, as mudanças profundas são lentas e quanto mais profundas mais lentas”.

“Não acredito numa renovação da Igreja feita a partir de um decreto de um senhor papa seja Francisco seja quem for. Não é possível, nem é desejável”.

“A mim parece-me que o maior problema do cristianismo é a separação entre a oração e a acção, a vida e a fé”.

 

Papa Francisco: “Rezai por mim!”

11062170_877552468978544_4067039817170486092_oAmanhã, sexta-feira, celebramos o segundo aniversário da eleição do Papa Francisco. Dois anos passados, a força das palavras e gestos do Papa Francisco, a sua autoridade moral e influência política, o magnetismo das multidões e a boa imprensa, continuam em permanente crescendo. O denominado “efeito do Papa Francisco” está longe de poder ser considerado uma coisa passageira e merece-nos uma análise mais profunda. Continue reading

Sínodo 2015: respostas fiéis e corajosas

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(publicado no suplemento Igreja Viva (11.12.2014) do jornal Diário do Minho)

Na última Assembleia extraordinária dos Bispos sobre a família o Papa Francisco encorajou os padres sinodais a falarem com franqueza e liberdade. Agora, no documento-base (“lineamenta”) para o Sínodo de 2015 (4 a 25 de Outubro), constituído pela Relação final e 46 questões, Francisco pede “respostas fiéis e corajosas” da parte dos Pastores e do povo de Deus. O objectivo do questionário é claro: “facilitar o devido realismo na reflexão de cada episcopado, evitando que as respostas possam ser dadas segundo esquemas e perspectivas próprias de uma pastoral meramente aplicativa da doutrina, que não respeitaria as conclusões da Assembleia sinodal extraordinária, e afastaria as reflexões do caminho já traçado”. Trocando em miúdos: é imperativo (re)pensar a pastoral familiar e não podem ser dadas as mesmas respostas de sempre.

Há já quem veja neste parágrafo uma tentativa de influenciar as respostas. Angela Ambrogetti, jornalista vaticanista, afirma: “algumas Igrejas locais talvez prefiram um acento mais decisivo sobre a doutrina perante uma prática pastoral amplamente desligada do Magistério”. Talvez por isso, e procurando salvaguardar a pluralidade de posições, na introdução ao questionário coloca-se uma pergunta prévia referente à Relação final: “A descrição da realidade da família presente na Relatio Synodi (Relação final) corresponde a quanto se evidencia na Igreja e na sociedade de hoje? Quais os aspectos que faltam e que se podem integrar?”. Continue reading