Tagged: Misericórdia

Diplomacia: a misericórdia como processo político

Pope Francis addresses a joint meeting of Congress on Capitol Hill in Washington, Thursday, Sept. 24, 2015, making history as the first pontiff to do so. Listening behind the pope are Vice President Joe Biden and House Speaker John Boehner of Ohio. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)
Pope Francis addresses a joint meeting of Congress on Capitol Hill in Washington, Thursday, Sept. 24, 2015, making history as the first pontiff to do so. Listening behind the pope are Vice President Joe Biden and House Speaker John Boehner of Ohio. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)

É inegável o interesse com que nestes últimos tempos a comunidade internacional segue o pontificado do papa Francisco e a actividade diplomática da Santa Sé. Aliás, nesta mesma coluna já tivemos a oportunidade de aflorar o modo como o papa tem vindo a liderar e a definir a agenda internacional, sobretudo a partir da encíclica Laudato Si’. A tal ponto que hoje para um político, independentemente do quadrante político em que se situa, o melhor argumento de autoridade é mesmo citar o papa. Ainda que a tentação de instrumentalizar as suas palavras seja grande. Continue reading

O nome de Deus é misericórdia e um cristão está sentado na cátedra de Pedro

Italian actor Roberto Benigni and Cardinal Piero Parolin arrive for the presentation of the book ' The name of God is Mercy' (Il nome di Dio e' Misericordia), Rome, Italy, 12 January 2016. ANSA/ETTORE FERRARI
Italian actor Roberto Benigni and Cardinal Piero Parolin arrive for the presentation of the book ‘ The name of God is Mercy’ (Il nome di Dio e’ Misericordia), Rome, Italy, 12 January 2016. ANSA/ETTORE FERRARI

[publicado no suplemento Igreja Viva (14.01.2016) do jornal Diário do Minho]

Com o papa Francisco não há surpresas. É um homem previsível. E não falo da previsibilidade da imprevisibilidade. Embora estejamos consciente ou inconscientemente convencidos do contrário. Passados quase três anos da sua eleição, relendo à distância o seu primeiro Angelus de 17 de Março de 2013, e passando pontificado em revista, a misericórdia está ali, preto no branco, como programa do pontificado. E Francisco é previsível porque o seu pontificado, mesmo em contínuo discernimento, desde o início, é tão simples, claro, concreto e profundo quanto é o Evangelho. A estupefacção perante os gestos, as escolhas e os discursos, essa imprevisibilidade que faz notícia, abre telejornais, gera gostos e partilhas nas redes sociais existe em grande parte porque se ignora o Evangelho. Ignora-se o cristianismo. Ignora-se que na cadeira de Pedro está um cristão, para pedir emprestadas as palavras a Hannah Arendt. A filósofa política alemã de origem judaica, no seu livro Homens em tempos sombrios, tem um texto extraordinário sobre o Papa João XIII intitulado Angelo Gisuppe Roncalli: um cristão no trono de São Pedro de 1958 a 1963. Com ironia, a discípula de Heidegger interrogava-se como era possível que um cristão se sentasse na trono de São Pedro. Perguntava ela, a propósito de João XXIII: “Ele primeiro não teve de ser indicado bispo, e arcebispo, e cardeal, até ser finalmente eleito como papa? Ninguém tinha consciência de quem ele era?” Pelos vistos não. Continue reading

Sê misericordioso, confessa os teus pecados e reza

12f84-papa“Sê misericordioso, confessa os teus pecados e reza”. A frase é do vaticanista Andrea Gagliarducci e aparece-nos num texto comemorativo dos dois anos da eleição do Papa, onde questiona se a misericórdia não será o verdadeiro rosto da “revolução” de Francisco. Escreve o vaticanista: “talvez o Papa tenha convocado o Jubileu com o objectivo de fazer passar esta mensagem: sê misericordioso, confessa os teus pecados e reza. É deste modo que se realiza a conversão dos corações, e não através de agendas (seculares ou não) que tentam dar a este pontificado uma direcção diferente da de Francisco”. Continue reading

Entre o matrimónio indissolúvel e a misericórdia

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[Tradução livre do texto ‘Tra matrimonio indissolubile e misericordia’, de Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bose, publicado hoje (12.10.2014), no quotidiano italiano ‘La Stampa’, pp 1 e 25]

Logo depois da eleição do papa Francisco, o cardeal Ravasi declarou: “Respira-se um novo ar há muito esperado”. Hoje, depois de vinte meses de pontificado, podemos dizer que se criou um outro clima no tecido eclesial: um clima de liberdade expressão no qual, com parrésia, cada católico, bispo ou simples fiel, pode deixar falar a sua própria consciência e dizer aquilo que pensa, sem ser logo reduzido ao silêncio, censurado ou até mesmo punido, como acontecia nos últimos decénios.

Isto não significa um clima idílico, porque os conflitos, alguns mesmo duros, estão presentes no seio da Igreja — como já testemunhado nos escritos do Novo Testamento — mas se estes forem vividos sem excomunhões recíprocas, se cada um escutar as razões do outro sem fazer dele um inimigo, se todos procurarem manter a comunhão, então, até mesmo os conflitos são fecundos e servem para aprofundar e dar razões das esperanças que abitam o coração dos cristãos.

Infelizmente pode-se constatar que já há “inimigos do Papa”: pessoas que não se limitam a criticá-lo com respeito, como acontecia com Bento XVI e João Paulo II, mas chegam ao ponto de desprezá-lo. Um bispo que diz aos seus padres que a exortação apostólica Evangelii Gaudium “poderia ter sido escrita por um lavrador” exprime um juízo de desprezo, mas profeticamente declara que aquela carta é legível e compreensível até por um pobre e simples cristão da periferia do mundo. Assim, além das intenções, aquelas palavras de desprezo constituem um elogio. Alguns acrescentam, para deslegitimar a eleição de Bergoglio, que o conclave não decorreu segundo as regras, outros sustentam que há dois papas, os dois sucessores de Pedro mas com funções diferentes… Há muito que conhecemos estas pessoas mais propensas a seguir as próprias hipóteses eclesiásticas do que a objectividade da grande tradição católica na qual vale o primado do evangelho. Continue reading