Sínodo da Família: a colegialidade posta à prova

Caminhamos a passos largos para aquele que é um dos acontecimentos mais esperados pela Igreja Católica nos últimos anos: a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos dedicada às questões da família que terá lugar no Vaticano de 5 a 19 de Outubro. O tema sempre esteve no coração da Igreja, mas assumiu especial relevo e expectativa desde o momento em que o cardeal alemão Walter Kasper, no consistório de 20 e 21 de Fevereiro, apresentou uma proposta que abre a possibilidade da admissão dos divorciados recasados à comunhão. A proposta de Kasper lançou o debate, fez correr muita tinta e rapidamente se polarizaram as posições “pró” e “contra”, com os purpurados Kasper e Müller, actual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a serem colocados como bandeira de uma e outra posição, respectivamente.

Nem só de divórcios vive a família, graças a Deus, e o Instrumentum Laboris dado a conhecer a 26 de Junho, é a prova que o Sínodo não se reduz a uma só questão, pese embora o facto da comunicação social centrar aí toda a atenção.

Nesse sentido, o meu destaque desta semana vai para um artigo de John W. O’ Malley, professor de teologia na Universidade de Georgetown Univer sity, Washington, Estados Unidos, publicado no semanário católico britânico The Tablet (6 de Setembro, pp. 11-13), com o sugestivo título “Momento da verdade”. O texto é o primeiro de um conjunto de artigos que o semanário vai publicar nas próximas semanas com o objectivo de analisar as questões dedicadas à família que vão ser debatidas no Sínodo. Na perspectiva de O’Malley, o que está em causa neste Sínodo vai muito além da questão familiar: “o verdadeiro teste para o sínodo será se o estilo colegial de governo na Igreja, ensinado pelo Concílio Vaticano II, mas esqueci-do ao longo dos anos, será finalmente realizado”. O’Malley faz uma sintética mas significativa incursão histórica para explicar como o caminho até ao Motu Proprio, Apostolica Sollicitudo, do Papa Paulo VI a 15 de Setembro de 1965, onde se estabelece o Sínodo dos Bispos, foi fruto de um trabalho árduo da maioria dos bispos que encontraram muitas resistências na Cúria Romana. “A colegialidade não foi simplesmente um ensinamento mais entre tantos outros promulgados pelo Vaticano II. Foi a prova de fogo do Concílio. (…) Mais do que qualquer outra disposição do concílio, [a colegialidade] definiu como a Igreja devia funcionar no futuro. Não como uma monarquia, com a autoridade exercida desde cima, mas como um órgão cole- gial que cumpre a sua missão através de um líder servo”, escreve o teólogo estadunidense.

Para O’Malley, as medidas que o Papa Francisco tem vindo a tomar, desde a criação do conselho de oito cardeais para o ajudar na reforma da Cúria Romana e no governo da Igreja, — “muito similar ao conselho proposto pelos bispos no Concílio Vaticano II para implementar a colegialidade muito antes do motu próprio em que Paulo VI estabeleceu o sínodo” — quer a auscultação dos fiéis de todo o mundo através de um questionário para preparar o sínodo, revelam que o “modo colegial de trabalhar é como que uma segunda natureza do Papa Francisco”. O’Malley entende que estes dois próximos sínodos talvez sejam “uma última oportunidade para a Igreja restaurar a colegialidade” e um “teste à visão do Papa Francisco para a Igreja e à sua capacidade para torná-la realidade”.

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