Sem vencedores nem vencidos

[publicado no suplemento ‘Igreja Viva’ (23.10.2014, p. 2) do jornal Diário do Minho]

Desengane-se quem pensa que a primeira fase do sínodo da família finalizou no Domingo passado com a beatificação do Papa Paulo VI. Fora da aula sinodal, em ambiente mais distendido, mas sempre focalizado sobre as questões pastorais difíceis, o debate continua. Nesta segunda-feira passada, os cardeais Reinhard Marx, Luis Antonio Tagle, Velasio de Paolis e Mauro Piacenza, marcaram presença na imprensa italiana e as suas posições fazem prever um ano intenso para a Igreja.

No centro do debate o parágrafo 52 da Relatio Synodi — relatório conclusivo da primeira etapa do sínodo constituído por 62 parágrafos — que abre a possibilidade dos divorciados recasados poderem comungar. Não uma abertura generalizada a todos os casos mas a “algumas situações particulares e condições bem precisas, sobretudo quando se trata de casos irreversíveis”. Isto depois de “um caminho penitencial sob responsabilidade do bispo diocesano”. O parágrafo não obteve a maioria qualificada de dois terços dos votos, mas foi aprovado pela maioria e faz parte do documento final.

Alguma imprensa apresentou a falta de consenso neste parágrafo, bem como nos 53 e 55 — que abordam as questões das uniões de facto e homossexuais, respectivamente — como uma derrota do Papa e da ala reformista. Tal interpretação não se deve apenas ao facto de os jornalistas tenderem a simplificar a informação, recorrerem à controvérsia e ao confronto de modo a atraírem leitores. Nem se explica somente pela falta de jornalistas especialistas na cobertura informativa da Igreja Católica, capazes de enquadrar e transmitir de modo adequado o “acontecimento religioso”. Será certamente a conjugação de vários factores. Mas também não podemos esquecer que os jornalistas espelham nos seus artigos a realidade. Por isso, convém lembrar que alguns artigos de opinião e declarações públicas, feitos por pessoas com responsabilidades eclesiais, entraram precisamente na lógica de vencedores e vencidos. Quando lemos expressões do estilo “prognósticos, só no fim do jogo!” ou, como ouvi recentemente, “a partida são 90 minutos, no fim veremos quem ganha” o que é que pensamos? Em vencedores e vencidos, claro está!

O pior que nos pode acontecer, findo este longo processo de discernimento sinodal, é uma Igreja dividida entre vencedores e vencidos.

Nesse sentido, tendo em conta a sensibilidade e a complexidade dos temas que se abordam, seria importante que a reflexão e a opinião acrescentassem, sobretudo, valor ao debate, procurando sempre o bem das pessoas em causa. A piada fácil e a ironia corrosiva, que pouco ou nada acrescentam à reflexão, só criam mais divisões, geram ressentimentos e infligem mais sofrimento.

Temos mais um ano pela frente. “Um ano para maturar, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e inumeráveis desafios que as famílias têm de enfrentar; para dar resposta a tantos desencorajamentos que envolvem e sufocam as famílias”, como afirmou o Papa Francisco, no discurso conclusivo dos trabalhos.

PartilharShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Share on LinkedIn0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page

Post a comment

You may use the following HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>