Se a vida te dá limões, faz limonada

FranciscoFamilia_LOsservatoreRomano“Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. O incipit do clássico da literatura Anna Karénina de Lev Tolstoi é tomado a sério pelos jornalistas no momento de noticiar a família. As famílias “normais” raramente são notícia e nunca abrem telejornais. Esse espaço está reservado para as “disfuncionais”. Em termos mais prosaicos, em jargão jornalístico, a expressão anglo-saxónica “Bad news is good news” (más notícias são boas notícias) sintetiza bem a frase que só a mestria e a genialidade de Tolstoi podiam cunhar.
Esta imagem da família fortemente problemática apresentada pela comunicação social compreende-se quando se tem conhecimento do papel e importância dos valores jornalísticos, ou news values no âmbito da tradição anglo-saxónica. Ou seja, os critérios que determinam a importância para que um facto ou acontecimento sejam notícia. A negatividade é um dos valores jornalísticos mais recorrentes a par do conflito. No fundo os jornalistas amplificam o interesse humano pelo drama e pelo conflito, já que conaturalmente nos envolvemos em situações em que eles se verificam e pensamos como teríamos reagido se nos encontrássemos em circunstâncias semelhantes. Além disso, no conflito e no drama, o leitor ou o espectador ficam reféns e expectantes quanto ao desfecho final.
Na mensagem para o 49.º dia Mundial das Comunicações Sociais, intitulada “Comunicar a família: ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor”, Francisco afirma que “o desafio que hoje se nos apresenta, é aprender de novo a narrar [entenda-se narrar a família], não nos limitando a produzir e consumir informação embora esta seja a direcção para a qual nos impelem os potentes e preciosos meios da comunicação contemporânea. A informação é importante, mas não é suficiente, porque muitas vezes simplifica, contrapõe as diferenças e as visões diversas, solicitando a tomar partido por uma ou pela outra, em vez de fornecer um olhar de conjunto”. Na tentativa de responder a este desafio, penso que é necessário tomar partido do conflito como valor jornalístico. Neste sentido não podia estar mais de acordo com Armando Fumagalli, professor de semiótica e director do Master em escritura para ficção e cinema na Universidade Católica do Sacro Cuore em Milão, quando diz: “para resolver o problema de narrar uma família (relativamente) feliz, de um ponto de vista dramatúrgico [e aqui acrescento jornalístico] parece–nos que o problema essencial seja compreender a questão do conflito, que é considerado por todos aqueles que ensinam a escrever para o cinema e televisão a alma de uma história, o elemento que dá interesse e que mantém acesa a atenção do espectador”.


Tensão, conflito e drama não faltam às famílias, a todas as famílias, mesmo à Sagrada Família de Nazaré. “Não existe a família perfeita, mas não é preciso ter medo da imperfeição, da fragilidade, nem mesmo dos conflitos; preciso é aprender a enfrentá-los de forma construtiva”, diz o Papa.
Não nos faltam histórias familiares extraordinárias de superação de tempestades, conflitos e de perdão, que podem e precisam de ser narradas de forma bela e atraente.
Não culpemos os valores jornalísticos, nem as linhas editoriais, nem as redacções, nem os jornalistas, mas tomemos positivamente partido das regras de jogo. Isto é: se nos são oferecidos limões nós fazemos limonada.

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