Quando a normalidade é o mal, o bem torna-se notícia

401630

[publicado no suplemento Igreja Viva (10.12.2015) do jornal Diário do Minho]

A frase é de Giangiacomo Schiavi, jornalista e escritor, e encontra-se no prefácio de um livro que reúne 79 boas notícias publicadas no quotidiano italiano Corriere della Sera e no blog homónimo criado propositadamente para o efeito[1]. A ideia de abrir uma secção do Corriere della Sera dedicada só às boas notícias foi do então director Ferruccio de Bortoli. De Bortoli pediu aos seus jornalistas para alargarem «o olhar sobre aquela pequena grande Itália que não é suficientemente conhecida». Uma Itália, como qualquer outro país, habitada por milhares de «heróis da normalidade» que raramente são capa ou notícia nos jornais.

No prefácio, Schiavi insurge-se contra um jornalismo que se entende como um cahiers de doléances e fala da necessidade que todos temos de “confiança e de nos reconhecermos em qualquer coisa que nos momentos de crise nos dê um pouco de esperança”. Mas o mais surpreendente é a sua visão sobre o jornalismo, quando afirma: “procurar o bem não é uma via de fuga ao jornalismo de investigação e de denúncia: este permanece o nosso abc. No entanto, ajuda-nos a entender que o nossa profissão não é um trabalho qualquer: devemos também saber transmitir alguma coisa, trabalhar para uma qualquer esperança”.

Talvez não seja viável, pelo menos financeiramente e em Portugal, criar um jornal e/ou página de internet inteiramente dedicado a boas notícias. Há pouco menos de um mês, o site informativo Boas notícias dava conta da suspensão da actividade e da procura de novos investidores. O projecto iniciado em 2010, por uma equipa de jornalistas profissionais, chegou a ser seguido por mais de 200 mil pessoas no facebook e registou 2 milhões de páginas vistas por mês. Hoje, é apenas mais um arquivo morto online, constituído por 30 000 artigos. Mas pelo menos uma janela sobre a realidade poder-se-ia abrir e “romper com o tabu do bem que não faz notícia”, come afirma Schiavi.

Talvez o jornalismo também tenha necessidade de viver o Jubileu Extraordinário da Misericórdia e atravessar a Porta Santa. Não se trata de um pensamento piedoso. Nem se quer do desejo de converter a comunicação social ao cristianismo. Mas o reconhecimento de que o também o jornalismo necessita de conversão, isto é, de ser a melhor versão de si mesmo. Além do mais, o exercício da profissão «implica um cuidado especial pela verdade, a bondade e a beleza; e isto torna-nos particularmente vizinhos, já que a Igreja existe para comunicar precisamente isto: a Verdade, a Bondade e a Beleza “em pessoa”. Deveria resultar claramente que todos somos chamados, não a comunicar-nos a nós mesmos, mas esta tríade existencial formada pela verdade, a bondade e a beleza» como disse o papa Francisco no primeiro encontro com o jornalistas.

Na política, na economia, na ciência, no desporto, no trabalho, no mundo da cultura e do espectáculo, não faltam boas notícias, não falta quem as procure, come se vê, mas falta quem as dê.

[1] Giangiachomo Schiavi (ed.), Buone notizie. Storie di un’Italia contracorrente nelle pagine del “Corriere della Sera”, Milano: Instant book Corriere della Sera, 2014.

 

PartilharShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Share on LinkedIn3Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page

Post a comment

You may use the following HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>