Pobres de todo o mundo, uni-vos!

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O título é sensacionalista? Não. É realista. Bem sei que estou a glosar o famoso slogan político — “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” — do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels. No entanto, “Pobres de todo o mundo, uni-vos!” bem poderia ser a exortação-síntese do discurso do Papa Francisco na audiência aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Encontro promovido pelo Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, com a colaboração da Pontifícia Academia das Ciência Sociais e dos dirigentes de vários Movimentos. O encontro no Vaticano teve início no dia 27 de Outubro e terminou ontem, quarta-feira.

Perante mais de duzentos participantes, o Papa Francisco proferiu, em espanhol, um dos discursos mais longos, mais assertivos e acutilantes contra “a globalização da indiferença”, depois da Evangelii Gaudium (EG). A agência norte-americana Associated Press refere-se ao discurso como uma “mini-encíclica sobre o direitos dos pobres, as injustiças, o desemprego e da necessidade da protecção ambiental”.

Num discurso de oito páginas, Francisco precisou apenas de três palavras, os três “t” do título do encontro, para manifestar um desejo “muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos: terra, tecto e trabalho”. Terra, tecto e trabalho são, afirmou o papa, “direitos sagrados”. Citando implicitamente o bispo brasileiro D. Hélder Câmara, afirmou: “É estranho, mas se falo disto, alguns acham que o Papa é comunista”. Mas não é, bem sabemos.

Como acertadamente escreveu José Manuel Fernandes, ex-director do jornal Público, aquando da publicação da EG (Público, 17.01.2014, p. 48), o Papa não é de esquerda nem de direita, é “apenas católico”. Acontece é que a Doutrina Social da Igreja é por muitos desconhecida. Por isso mesmo, para que não se pense que as suas palavras são demasiado de esquerda, Francisco, perante o “escândalo” e “crime” da fome, não hesitou em citar o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI) para afirmar que “a reforma agrária, além de uma necessidade política, é uma obrigação moral” (CDSI, 300).

Segundo Francisco, os Movimentos Populares são sinal de “uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não padecem só a injustiça mas também lutam contra ela!” A solução não passa por esperar de “braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de tal maneira que vão na direcção ou de anestesiar ou de domesticar”. Para o Papa, os pobres “já não esperam e querem ser protagonistas” e a palavra solidariedade também significa “lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e habitação, a negação dos direitos sociais de trabalho”. Tudo frases que se podem ler no discurso.

No próximo dia 25 de Novembro, o Papa Francisco visita o Parlamento Europeu e o Conselho da Europa, onde irá discursar. Os dados estatísticos citados neste discurso aos Movimentos Populares, sobretudo no que diz respeito ao desemprego juvenil, deixam antever que Francisco quer colocar o trabalho em primeiro plano. O Arcebispo Mario Toso, secretário do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, já disse que o Papa pedirá mais equidade social. Falta é saber o tom e o modo como pedirá. A julgar pelo presente discurso tudo leva a crer que Francisco não pedirá por favor o que é devido por justiça.

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