Pedofilia, Clericalismo e responsabilidades

resignaçãoA história encarregar-se-á de render a devida homenagem àquele que será conhecido como um dos maiores mestres e pontífices do séc. XXI. Refiro-me ao Papa Emérito Bento XVI. E, ao contrário do que é comummente dito e assumido, o combate contra a pedofilia na Igreja tem a sua marca, senão mesmo um pioneiro. Neste particular, creio mesmo que Bento XVI conjugou magistral e prudencialmente firmeza, descrição, justiça e misericórdia.

Ao longo do seu pontificado, apenas 8 anos (2005-2013) o papa alemão demitiu 80 bispos com responsabilidades nos casos de pedofilia. Como afirmou em 2013 D. José Aparecido Gonçalves de Almeida, actual bispo auxiliar de Brasília, mas na altura das declarações à Renascença sub-secretário do Conselho Pontifício para os Textos legislativos, Bento XVI iniciou uma “limpeza com dados concretos”. “Não creio que haja na história da Igreja um Papa que tenha demitido 80 bispos que foram negligentes no governo destes casos”, declarou.

Importa trazer à memória estes dados numa altura em que a Comissão de peritos para a protecção de menores na Igreja, constituída a Dezembro de 2013 pelo Papa Francisco, vem reclamar uma assunção de responsabilidades da parte dos vértices da Igreja. Reunida no Vaticano de 6 a 8 de Fevereiro, a Comissão constituída por 17 membros e presidida pelo cardeal Sean Patrick O’Malley, arcebispo de Boston, e com a particularidade de dois dos seus membros, Mary Collins e Peter Saunders terem sido vítimas de abusos sexuais, insistiu na importância dos superiores de comunidades religiosas e bispos serem responsabilizados quando negligenciaram e/ou encobriram estes casos. Mary Collins e Peter Saunders, irlandesa e inglês respectivamente, ameaçaram mesmo abandonar a Comissão caso nos próximos dois anos não vier a ser tomada nenhuma posição que clarifique a assunção de responsabilidades por parte dos membros da Igreja. Muito concretamente da parte dos bispos. Para a Comissão não basta o cuidado pastoral às vítimas e familiares, investir em educação, ter linhas orientadores sobre boas práticas, formar sacerdotes e religiosos. O que a Comissão pede é que a culpa não morra solteira e que quem se viu implicado, directa ou indirectamente, nestes casos seja responsabilizado.

Quem parece advogar esta linha é O’Malley, que preside à Comissão. Sábado passado, na conferência de imprensa tida na Sala Stampa, o arcebispo de Boston disse que “tinha de haver consequências” para os bispos que não respondam de modo apropriado às acusações de abusos sexuais. Está agora nas mãos do Papa assumir ou não estes pedidos da Comissão.

Não tenhamos dúvidas, uma decisão do Papa neste sentido vai mudar radicalmente não só a abordagem dos bispos a estes casos, o que é inevitável, mas, sobretudo, será uma machadada necessária a um dos sintomas mais agudos do clericalismo que o escândalo de abusos sexuais pôs a nu: um elitismo clerical fruto de uma concepção, que se achava ultrapassada, de superioridade do sacerdócio sobre os leigos.

A frase lapidar de Santo Agostinho “Sou bispo para vós, sou cristão convosco”, proferida no séc. V, assume por estes dias uma actualidade desconcertante.

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