Papa Francisco define agenda internacional

Time_2015.09.28_Asia página 1

[publicado no suplemento Igreja Viva (24.09.2015) do jornal Diário do Minho]

Uma nota prévia. Tinha em mente escrever sobre a viagem apostólica do Papa Francisco a Cuba e aos Estados Unidos. Afinal, este é assunto religioso da actualidade. Mas, convenhamos, o sucesso das viagens estava garantido antes mesmo do avião papal descolar. A viagem a Cuba foi, essencialmente, um momento celebrativo da diplomacia vaticana que, sob a batuta de Francisco, facilitou a restabelecimento das relações diplomáticas entre Havana e Washington. Já no que diz respeito à viagem aos Estados Unidos, essa sim com mais motivos de interesse, quer a nível político quer religioso, a festa inicia com a família Obama a estender a passadeira vermelha a Francisco, ao recebê-lo na base aérea militar de Andrews. Uma honra reservada a convidados muito especiais. É certo que os discursos na ONU e no Congresso — onde pela primeira vez um papa discursará — bem como a homília na missa de encerramento do Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, estão a gerar grandes expectativas. A recepção à encíclica Laudato Si, da parte da direita política estadunidense, não foi de todo positiva

Contemporaneamente, a ala mais conservadora do catolicismo norte-americano vive com coração nas mãos sempre que Francisco se refere aos grandes temas como a família, aborto e pobreza. Não podemos esquecer, também, que o sínodo sobre a família de Outubro está à porta e a questão da possibilidade da comunhão aos divorciados recasados está em suspenso. Acrescente-se, ainda, a saída do Motu proprio, Mitis Iudex Dominus Iesus, tendo em vista da simplificação do processo da nulidade matrimonial, que no famigerado artigo 14 — com direito até a um “etc.” (!!!) no final da redacção — prevê novas causas de nulidade e deixa muitas questões em aberto, ao ponto de alguns dizerem que se abriram as portas ao “divórcio católico”.

Postas assim as coisas, tudo bem pesado e medido, mesmo navegando sobre águas turbulentas e incertas, de Setembro a Novembro, pelo menos, só vai dar Francisco e só mesmo um cataclismo diplomático e religioso poderá inverter o tom celebrativo.

Ainda esta semana, a revista Time [edição asiática, 12 (2015), pp. 26-31], pela quarta vez, dedica a capa ao Papa Francisco com o título O novo império romano: O alcance global do Papa Francisco. Nas páginas interiores, Elisabeth Dias, autora da reportagem, escreve: “De Cuba às mudanças climáticas, o Papa Francisco revitalizou o papel do Vaticano na diplomacia global. Agora, ele traz a sua agenda activista aos Estados Unidos”.

E eis que chegamos ao cerne da questão, isto é, que a Igreja tenha a sua agenda isso não é uma novidade, mas é uma novidade que o Papa, a Igreja, marque a agenda internacional. E tal só é possível porque Francisco deixou a retaguarda, o estilo defensivo, e está a colocar a Igreja verdadeiramente em saída, a reformar-se, a arriscar, a ousar, a marcar ritmo e a fazer propostas concretas da vivência da caridade. Francisco faz-nos ter saudades do futuro.

Claro está que muitos o veem como um populista ou, como um certo criticismo latino-americano pretende etiquetá-lo, um peronista. Mas o verdadeiro segredo de Francisco não tem nada de extraordinário e é tão simples quanto isto: viver o Evangelho. O que me leva a concluir que até poderá suceder que o fim de Francisco venha a ser a cruz pessoal, sobre a qual se interroga, a de acabar abandonado e incompreendido. É que ele vai à frente, muito à frente.

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