O Sínodo dos Média e o Sínodo dos Bispos

Há uma euforia mediática em torno do sínodo da família. Uma euforia compreensível tendo em conta que o assunto tratado e a expectativa gerada, em particular no que diz respeito à possibilidade da readmissão dos divorciados recasados aos sacramentos, toca milhões de pessoas. Depois, porque os protagonistas deste sínodo puseram em prática uma verdadeira campanha mediática. Falo em concreto, e apenas a título de exemplo, das inúmeras entrevistas que Walter Kasper deu, com o objectivo de esclarecer a sua posição no último consistório, e do livro escrito por cinco cardeais, com o cardeal Müller prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé à cabeça, publicado há pouco menos de um mês e intitulado “Permanecer na Verdade de Cristo”, onde os autores se manifestam contrários a admitir os divorciados recasados à comunhão. Em suma, um debate bipolarizado e afunilado, se não mesmo entrincheirado, entre prós e contras e/ou “progressistas e conservadores”, como alguns preferem categorizar.

Ora, quem leu atentamente o Instrumentum Laboris (IL) do sínodo da família não partilha da euforia mediática, mas interpreta e vive estes acontecimentos com um sereno realismo evangélico. Não porque IL não aborde as questões difíceis e não deseje apresentar orientações e soluções pastorais, mas porque é muito claro ao identificar a doença sem descurar os sintomas, quando afirma que “onde é transmitido em profundidade, o ensinamento da Igreja com a sua genuína beleza, humana e cristã, é aceite com entusiasmo por grande parte dos fiéis” (IL, 13). No mesmo IL (10) pode-se ler o quanto é “decisiva a formação do clero e em particular a qualidade das homílias”, e não se deixa de advertir que mais do que multiplicar iniciativas pastorais é necessário animar biblicamente toda a família.

Sejam quais forem as orientações pastorais em matéria de casais divorciados recasados, uniões homossexuais e suas implicações, os métodos de regulação fertilidade e contracepção, nenhuma delas será mais importante do que o modo como vão ser comunicadas. Este constitui e constituirá sempre o grande desafio da Igreja, ou seja, como comunicar/anunciar o evangelho de modo a que a fé se torne cultura. Aqui importa recordar as palavras do Papa João Paulo II: “uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, não inteiramente pensada, não fielmente vivida”. Neste sentido,a grande questão a que o Sínodo terá inevitavelmente de responder é esta: como comunicar a beleza do evangelho da família?

Esta segunda-feira, um casal australiano, o primeiro casal a tomar a palavra no sínodo, referiu-se aos documentos da Igreja sobre a família como se viessem de “outro planeta pela sua linguagem difícil e tão pouco próximos” da sua “experiência pessoal”.

Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, e secretário-especial do sínodo, em entrevista ao quotidiano católico Avvenire (30.09.2014, p. 15), questionado sobre as razões pelas quais a sensibilidade dominante em relação à família é tão distante da católica apresentou duas fundamentais: uma, o problema de cultura dominante que coloca sob suspeita vínculos definitivos, fiéis e irreversíveis; outra, “as dificuldades de comunicação”. Conclusão de Bruno Forte, precisamos de “uma linguagem nova, mais ajustada e mais compreensível à sociedade complexa da nossa pós-modernidade”.

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