O que é e o que deixa de ser notícia

#QuemLiga“O problema não é o que vira notícia, mas o que deixa de ser”. O slogan de o Teto, uma Organização Não-Governamental brasileira, tem um objectivo muito simples: chamar a atenção para o contraste entre a imensa quantidade de notícias sobre o mundo das celebridades e a invisibilidade mediática de milhões de brasileiros que vivem na pobreza extrema (são 16 milhões, segundo as contas de o Teto). Para tornar mais acutilante a natureza deste contraste, o Teto está a promover uma campanha que apresenta fotografias de mulheres e de homens de Guarulhos, a segunda cidade mais populosa do estado de S. Paulo, que vivem em condições de pobreza, a segurar cartazes artesanais com manchetes de notícias sobre famosos.

A campanha, que tem a colaboração de uma grande agência publicitária, é muito eficaz. Ver pessoas sem o fingido glamour que inunda as páginas das revistas sociais, fotografadas em contextos de evidente pobreza, a segurarem papelões grosseiros com escritos à mão dizendo, por exemplo, que uma famosa foi vista a falar ao telemóvel, que uma actriz abriu a porta do carro ou que um actor foi visto a comer um pastel é, pelo menos, desconcertante. E é uma maneira eficaz de interpelar a agenda dos media.

Teto Campanha

É verdade, o problema não é o que é notícia, mas o que deixa de ser. O problema não são tanto as notícias sobre os que são famosos – apenas, tantas vezes, porque os media fazem com que eles sejam famosos –, quanto o que é amplamente excluído das páginas dos jornais e dos programas de televisão.

Se uma campanha idêntica fosse realizada em Portugal, os títulos de imprensa que podiam ser copiados para cartazes improvisados abundariam. Ontem, na capa de uma revista distribuída com um jornal diário, dizia um: “Cristina Ferreira frágil e cansada por excesso de trabalho”. Na ridícula página 3, o título, que ocupava mais espaço do que o corpo da notícia, repetia: “Apresentadora está cada vez mais cansada”. Na capa da publicação referida, pululam idênticas irrelevâncias. “Andreia e Lucy de costas voltadas”, dizia a manchete, presumindo que os leitores sabem – e talvez saibam – quem são as duas raparigas qualificadas como “estrelas” – e talvez outros assim as julguem, olhando para o pobre céu televisivo português.

Desmentindo a primeira parte do slogan de o Teto, mostrando, portanto, que não é verdade que “o problema não é o que vira notícia”, a mesma edição do jornal refere que Judite de Sousa emitiu um comunicado em que diz que não permite notícias sobre o filho, “nem autoriza publicações de imagens, reportagens ou artigos respeitantes à sua vida privada e familiar”.

O que é notícia também pode ser um problema. É sempre um problema quando o que apenas é coscuvilhice se intromete nos espaços e nos momentos reservados ao jornalismo. E não é mais do que bisbilhotice um abundante número de notícias e reportagens apresentadas durante estes dias mais recentes a propósito de casos de violência em que os malfeitores e as vítimas são jovens. Explorando a fragilidade de alguns dos mais directamente envolvidos e dos seus familiares e amigos, assaltam-se os sítios mais recônditos da intimidade para oferecer lamentáveis momentos de obscenidade e violência jornalística (reproduzir, tal e qual, as imagens de uma agressão é também uma agressão, e de não menor violência. E o que filma uma cena de pancada é tão violento quanto o que dá os estalos ou os murros, tão violento e bastante mais estúpido).

Tudo é escorropichado para que não se perca um só pingo de audiência. Garante-se que apenas se dá às pessoas o que as pessoas querem, como se fosse lícito oferecer a alguém o que, sem direito, possa ser reclamado. Há restrições, que cerceiam a liberdade a que tudo se saiba, contra as quais as pessoas decentes não barafustam. Uma delas estabelece que ninguém entra na casa do vizinho que não conhece para espiolhar. Mas não faltam os que se acobertam com o jornalismo para realizar com zelo essa infame tarefa.

[por Eduardo Jorge Madureira Lopes, jornal Diário do Minho, 17.05.2015, p. 2]

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