O nosso canto de paz não é o “Imagine” de John Lennon

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Na sexta-feira santa do ano 2003, o padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na basílica de S. Pedro e diante de S. João Paulo II, iniciou a pregação com a letra da canção Imagine de John Lennon:

“Imagina que não há paraíso/ não é difícil se tentares / nenhum inferno debaixo de nós / acima de nós só o céu / Imagina toda a gente / a viver o presente / imagina que não há países. / Não é difícil, verás. / Nenhum motivo para matar ou morrer / e nenhuma religião também (…)”.

Na altura, o inaudito exórdio não passou despercebido à comunicação social e causou furor.A música, uma das 100 mais tocadas no séc. XX, é considerada como uma espécie de manifesto pacifista. Ainda este sábado passado, um dia depois dos famigerados atentados em Paris, o pianista alemão David Martello tocou esta mesma música junto à sala de espetáculos parisiense Bataclan, onde 89 pessoas perderam a vida. No mesmo dia, num concerto em Los Angeles (EUA), a banda de rock britânica Coldplay homenageou as vítimas com o “hino da paz” do ex-beatle.

Doze anos depois, a análise do padre Cantalamessa à letra da música e a meditação no seu todo revestem-se de uma actualidade profética, tendo em conta a ameaça terrorista que paira sobre a Europa, e merecem um releitura atenta[1]. Por exemplo, ele questiona-se sobre a necessidade imaginar “qualquer coisa que já tivemos no passado” e cujo o saldo resultou em milhões de vidas ceifadas. Um mundo sem paraíso, sem inferno, sem religião, sem pátria, sem propriedade, onde se ensina a viver para a terra, não era essa, afinal, a sociedade que se tinham proposto realizar os regimes totalitári0s comunistas? “O sonho, diz o franciscano, não é novo, mas o acordar dele não foi alegre…” Mas a proposta de Lennon já na altura (1971) tinha pouco de original. Cantalamessa recorda as palavras de Sarte, figura de proa do existencialismo ateu, “se Deus existe o homem é nada. Deus não existe! Felicidade, lágrimas de alegria! Não mais céu! Não mais inferno! Mais nada que terra. Pena é que mais tarde, Sarte, na peça teatral Entre quatro paredes (Huis clos), conclui que o inferno são os Outros. “Por esta via, o inferno não é abolido; foi só transferido para a terra”, concluiu o pregador.

Qual é então a via cristã para a paz? O padre Raniero propõe uma outra “canção” que nos aparece na Carta de S. Paulo aos Efésios (Ef 2, 14-18): “Ele [Jesus] é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne, anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo, fazendo a paz, e para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz, matando assim a inimizade. E, na sua vinda, anunciou a paz a vós que estáveis longe e paz àqueles que estavam perto. Porque, é por Ele que uns e outros, num só Espírito, temos acesso ao Pai”.

Também aqui é-nos oferecido um mundo de paz, “num só Corpo”, mas o caminho é todo um Outro. É que Jesus constrói a paz destruindo em si a inimizade e não o inimigo. Precisamos sim de declarações de guerra e de guerras santas, mas só se forem para destruir a inimizade, não os outros. E isto, como sustenta Cantalamessa, “não faz sentido só no âmbito da fé; vale também no âmbito político, para a sociedade”.

[1] Raniero Cantalamessa, Il potere della Croce II. Meditazioni 1999-2008, Ancora, Milano 2009.

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