O nome de Deus é misericórdia e um cristão está sentado na cátedra de Pedro

Italian actor Roberto Benigni and Cardinal Piero Parolin arrive for the presentation of the book ' The name of God is Mercy' (Il nome di Dio e' Misericordia), Rome, Italy, 12 January 2016. ANSA/ETTORE FERRARI
Italian actor Roberto Benigni and Cardinal Piero Parolin arrive for the presentation of the book ‘ The name of God is Mercy’ (Il nome di Dio e’ Misericordia), Rome, Italy, 12 January 2016. ANSA/ETTORE FERRARI

[publicado no suplemento Igreja Viva (14.01.2016) do jornal Diário do Minho]

Com o papa Francisco não há surpresas. É um homem previsível. E não falo da previsibilidade da imprevisibilidade. Embora estejamos consciente ou inconscientemente convencidos do contrário. Passados quase três anos da sua eleição, relendo à distância o seu primeiro Angelus de 17 de Março de 2013, e passando pontificado em revista, a misericórdia está ali, preto no branco, como programa do pontificado. E Francisco é previsível porque o seu pontificado, mesmo em contínuo discernimento, desde o início, é tão simples, claro, concreto e profundo quanto é o Evangelho. A estupefacção perante os gestos, as escolhas e os discursos, essa imprevisibilidade que faz notícia, abre telejornais, gera gostos e partilhas nas redes sociais existe em grande parte porque se ignora o Evangelho. Ignora-se o cristianismo. Ignora-se que na cadeira de Pedro está um cristão, para pedir emprestadas as palavras a Hannah Arendt. A filósofa política alemã de origem judaica, no seu livro Homens em tempos sombrios, tem um texto extraordinário sobre o Papa João XIII intitulado Angelo Gisuppe Roncalli: um cristão no trono de São Pedro de 1958 a 1963. Com ironia, a discípula de Heidegger interrogava-se como era possível que um cristão se sentasse na trono de São Pedro. Perguntava ela, a propósito de João XXIII: “Ele primeiro não teve de ser indicado bispo, e arcebispo, e cardeal, até ser finalmente eleito como papa? Ninguém tinha consciência de quem ele era?” Pelos vistos não.

Trago à liça este texto de Hannah Arendt porque esta terça-feira passada, na apresentação do livro do papa Francisco “O nome de Deus é misericórdia”, o actor Roberto Benigni colocou as questões que todos nós colocamos sobre o pontificado do papa Francisco sem se furtar a dar-lhes uma resposta e uma resposta surpreendente. Perguntava então Benigni: “O que é que está a fazer o Papa Francisco? Qual é a sua missão? O que é que está no centro (coração) do seu ministério? Para onde está a caminhar o Papa Francisco?” Resposta de Benigni: “Está a levar a Igreja para um lugar do qual quase nos esquecemos, já não o imaginávamos, em direcção ao cristianismo, em direcção a Jesus Cristo, em direcção ao Evangelho”.

O problema de Benigni é que a sua genialidade é facilmente traída pelo seu comportamento quase histriónico. Quem o escuta é inebriado pelo estilo extravagante e explosivo do discurso e tem dificuldade em colher a substância. Certo é que Roberto Benigni, tal como Hannah Arendt, cada um a seu modo, colocam-nos uma questão inevitável que merece ser respondida: como é possível admirarmo-nos e surpreendermo-nos com um papa que é cristão? Ou seja, um papa que vive e anuncia e o Evangelho.

Mais ainda, citando o cardeal Walter Kasper, é de perguntarmo-nos como é que na reflexão teológica a misericórdia é “um tema imperdoavelmente desconsiderado”, marginal, quase inexistente nos manuais mais recentes de teologia dogmática. Conclusão do cardeal alemão “o resultado não pode ser senão decepcionante, mesmo catastrófico”.

Que nome de Deus é misericórdia e que um cristão esteja sentado na cátedra de Pedro não é surpreendente. Surpreendente é termos esquecido quem somos: cristãos.

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