O caminho da Igreja e o caminho do Sínodo: misericórdia e integração

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(publicado no suplemento Igreja Viva (19.02.2015) do jornal Diário do Minho)

A homilia do Papa no Domingo passado, perante velhos e novos cardeais, merece ser lida e relida, rezada e meditada. Uma das mais belas e profundas homílias do pontificado e, segundo alguns vaticanistas, aprofundamento e chave de leitura no caminho de reflexão e maturação até ao próximo Sínodo. Um bom pretexto para retomarmos o Sínodo da família e perspectivarmos como a discussão sobre os divorciados recasados se revelará uma caixinha de surpresas. Vejamos dois exemplos.

D. Manuel Clemente clarificou a sua posição sobre a possibilidade dos divorciados recasados comungarem. Em Outubro do ano passado, numa entrevista à rádio Renascença, dizia que se colocava a “meio campo”. Considerava que “realidade é poliédrica, portanto, quanto mais perspectivações se tiver, deste ou daquele lado, por gente tão responsável e com tão boa vontade, melhor será para elucidar o assunto. E é nessa posição que me ponho: como aprendiz na matéria”. Agora, cinco meses volvidos, o neo-cardeal D. Manuel Clemente, em entrevista à SIC, foi peremptório: “a misericórdia não exclui a responsabilidade”, admitindo apenas a comunhão de divorciados recasados caso seja declarado nulo o primeiro matrimónio: “se o matrimónio não é nulo, é válido, e se é válido, continua”, disse.

Surpreendente, porém, é a posição do arcebispo africano Charles Palmer-Buckle de Accra, Gana. Palmer-Buckle — uma importante figura da Igreja africana e participante no próximo Sínodo sobre a família em Outubro — em entrevista ao jornal americano online Crux disse estar aberto à permissão dos divorciados recasados receberem a comunhão. E não se ficou por aqui. O arcebispo africano acredita ser este o resultado esperado pelo Papa no Sínodo de Outubro.

Esta posição faz cair por terra a imagem de uma Igreja Africana uniformemente contra as mudanças nesta matéria. Timothy Dolan, cardeal arcebispo de Nova Iorque, no final da Assembleia Extraordinária de Outubro passado, tecia rasgados elogios à Igreja africana e aos seus bispos. Falava da “frescura” dos bispos africanos e da vivacidade da Igreja africana em contraponto à “letargia” da Igreja europeia e norte-americana.

“Os bispos africanos são proféticos ao lembrar-nos que a missão da Igreja é transformar a cultura e não ser transformados pela cultura. (…) Receio que nós, no Ocidente, passemos o tempo a lamentar-nos ao dizer: temos de suavizar as coisas, temos de capitular, é óbvio que estes ensinamentos serão rejeitados, ó meu Deus nós não somos populares. E os africanos dizem: nós não estamos onde deveríamos estar. O que nós devemos fazer é propor a verdade e atrair as pessoas, através do amor e da alegria das nossas vidas, a abraçar essa verdade”, afirmava Dolan.

Por certo a Igreja a africana e os seus bispos não perderam em cinco meses o vigor, a vivacidade e o profetismo. Acontece é que a Igreja Africana encara os desafios pastorais como um “espaço para escutar e ver como pode acompanhar quem quer pertencer cada vez mais a Cristo”, como sublinhou Palmer-Buckle. Por outras palavras e citando a homília de Domingo do Papa Francisco, “o caminho da Igreja, desde o Concílio de Jerusalém em diante, é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração”.

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