O Apelo de Paris

“Os signatários de L’Appel de Paris (O Apelo de Paris) encontraram-se num momento particular da história da humanidade, em que o mundo assiste à irrupção inigualável do extremismo e da violência no Médio-Oriente, instrumentalizando o Islão como bandeira”. Assim inicia a declaração solene assi- nada no passado dia 9 de Setembro, na Grande Mesquita de Paris, pelas mais representativas instituições muçulmanas francesas.

O texto “fundador e histórico”, segundo os autores, resultante da iniciativa conjunta do Reitor da Grande Mesquita de Paris, presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano, Dalil Boubakeur e de Patrick Karam, presidente da Coordenação “Cristãos do Oriente em Perigo” (CHREDO), é, sem dúvida alguma, um acto inédito que poderá abrir novos horizontes no diálogo e convivência inter-religiosos entre cristãos e muçulmanos, sobretudo em França. Os signatários denunciam, “sem ambiguidades”, a barbárie dos combatentes do Estado Islâmico, reafirmam o direito dos cristãos e das minorias religiosas da região a viverem em segurança e lembram que o doutrinamento destes jovens é contra o Islão.

Este foi o primeiro passo de todo um plano de acção em defesa dos cristãos do Oriente. Uma outra iniciativa de grande alcance e significado aconteceu na passada sexta-feira, 12 de Setembro. Em todas as mesquitas de França e da Europa a oração foi dedicada à memória dos “irmãos cristãos do Oriente vítimas da intolerância e da barbárie”, e para testemunhar esta solidariedade uma delegação do CHREDO foi acolhida simbolicamente na Mesquita de Paris.

Estranhamente, ou não, quer a declaração conjunta, quer este momento de oração inéditos, não tiveram grande eco na imprensa internacional. Em Portugal, diga-se de passagem, foram completamente ignorados.Talvez conscientes do pouco impacto que a declaração pudesse ter nos média, os signatários assumiram o compromisso de difundi-la na Europa e no Oriente, “junto dos responsáveis religiosos e das populações interessadas”. Para o final do ano, está prevista a realização de uma conferência internacional, organizada pela Grande Mesquita de Paris e a CHREDO. O objectivo é reunir “todos aqueles, no Oriente e na Europa, religiosos e leigos, governos e organizações inter nacionais, que partilham os valores da compaixão e humanistas, a fim de levar a cabo um apelo solene de solidariedade com os Cristãos do Oriente e outras minorias”.

Esta terça-feira, Jean-Marie Guénois, jornalista do quotidiano francês Figaro e especialista em questões religiosas, escrevia num tweet “os muçulmanos de França estão profundamente divididos. Eles estão todos contra os jihadistas mas não conseguem dizê-lo a uma só voz”. Guénois poderá até ter razão, porém, como disse São João XXIII ao seu secretário Francis Loris Capovilla, que duvidava que o Papa tivesse forças e saúde para convocar e levar o Concílio Vaticano II até ao fim, “começar é já uma grande honra.” Creio que é isso mesmo o que signi-fica “O Apelo de Paris” para os seus subscritores e para a humanidade: uma grande honra pelo caminho novo iniciado em direcção da fraternidade e da paz.

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