Nem sim, nem não. Caso a caso

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[publicado no suplemento Igreja Viva (29.10.2015) do jornal Diário do Minho]

Cinco dias passados da conclusão do Sínodo da família, já todos percebemos que não ficou tudo igual nem tudo na mesma. Mesmo com todas as tentativas confrangedoras, diga-se de passagem, de minimizar o significado e o alcance do documento final. A aprovação dos parágrafos 84, 85 e 86, que dizem respeito ao discernimento e integração dos divorciados recasados, caso a caso, com a maioria qualificada de dois terços, foi rapidamente alvo de desqualificação por uma minoria, essa sim, supostamente qualificada. A desvalorização do êxito da votação final é fácil de explicar e de entender. Não há empate técnico que salve a face de quem entrou na lógica de vencedores e vencidos ou da famigerada metáfora do sínodo como se de um jogo de futebol se tratasse. Já para não falar de algumas crónicas pejadas de ironia corrosiva de fazer corar qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e que tinham como alvo famílias feridas pelo divórcio. Mas também houve quem imprudentemente se apressasse a apresentar as conclusões do sínodo, antes mesmo de entrar na aula sinodal. Atitude que além de manifestar um claro deficit de diálogo ignora o significado de uma igreja sinodal que o Papa Francisco define como: «uma Igreja da escuta, ciente de que escutar “é mais do que ouvir”. É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, “o Espírito da verdade” (Jo 14, 1), para conhecer aquilo que Ele “diz às Igrejas” (Ap 2, 7).

Uma boa síntese do resultado final destes dois anos intensos de reflexão e discussão é-nos oferecida pela jesuíta António Spadaro, director da revista La Civiltà Cattolica. Diz ele: «o sínodo encoraja as famílias e oferece misericórdia a quem falhou». Já foi dito e redito à exaustão mas vale a pena dizê-lo mais uma vez: o tema do sínodo era «a vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo» e não sobre situações complexas, assim denominadas no documento final, nas quais se incluem a situação dos divorciados recasados. Todavia, não sejamos ingénuos, o que acalentava as discussões e dividia os padres sinodais era a atitude pastoral a ter com os casais divorciados recasados, concretamente a possibilidade destes acederem ou não aos sacramentos. Sobre esta questão o Sínodo evitou a expressão Kasperiana «caminho de penitência» e adoptou a terminologia jesuítica «discernimento», mais consensual, de modo a que «os baptizados que estão divorciados e recasados civilmente possam ser mais integrados nas comunidades cristãs nos diversos modos possíveis, evitando qualquer ocasião de escândalo». Esta abertura a uma maior integração destes casais deve ser discernida pelos sacerdotes caso a caso «segundo o ensinamento da Igreja e das orientações do Bispo». A questão que se coloca é se esta maior integração poderá chegar a uma comunhão plena com a Igreja. Por outras palavras, se estes casais poderão aceder à comunhão e à confissão. O cardeal Raymundo Damasceno, arcebispo da Aparecida, no Brasil, e presidente delegado do Sínodo, em entrevista à Agência Ecclesia, disse: «quem sabe, num caso ou noutro, chegar até à comunhão e à confissão». Na mesma linha interpretativa dos três parágrafos encontram-se, por exemplo, o cardeal Vincent Nichols, arcebispo de Westminster e presidente da Conferência Episcopal de Inglaterra, e o arcebispo Bruno Forte, secretário do Sínodo.

Em suma, o Sínodo, sem nunca referir de modo explícito e directo a comunhão aos divorciados recasados, «toca de modo oblíquo a questão» — na expressão do cardeal Schönborn — e oferece os critérios de discernimento.

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