Onde estão as manifestações contra o Estado Islâmico?

Onde estão as manifestações contra o Estado Islâmico? Quem coloca a questão é Yasmine Bahrani, muçulmano e professor de jornalismo na American University, no Dubai, num artigo de opinião publicado no jornal norte-americano The Washington Post (29 de Agosto). Segundo Bahrani, as demonstrações de condenação contra o Estado Islâmico pelos actos horrendos contra Cristãos, Yazidis e mesmo Muçulmanos no Iraque e na Síria, foram em muito menor escala quando comparadas com as manifestações de Verão de milhares de muçulmanos nas ruas de Londres, Paris e outras cidades, para condenarem as mortes de civis resultantes dos raides do exército israelita.

Para Bahrani quem está em cheque é o próprio Islão. E não basta o refrão comum: “Isto não é o Islão”. Se é óbvio para os muçulmanos que o Islão não se confunde com estes grupos radicais, bárbaros e terroristas, sem qualquer respeito pelos direitos humanos, para uma larga maioria da opinião pública, está muito longe de ser óbvio. Mais, “goste-se ou não, — escreve Bahrani — o Estado Islâmico está a ganhar a guerra das relações públicas”.

É verdade que várias organizações muçulmanas condenaram firmemente os crimes cometidos contra cristãos e outras minorias religiosas no Iraque e no médio-oriente pelos jihadistas do Estado Islâmico. Sendo de destacar a intervenção do grão-mufti Shawqi Allam, uma das máximas autoridades religiosas egípcias. A União de Comunidades e Organizações islâmicas na Itália (UCOII) fez uma clara condenação dos crimes: “Quando uma força que ostenta as insígnias islâmicas viola todas as regras da Sharia e morais do conflito, nenhuma referência religiosa poderá ser proposta para justificar ou apoiar”.

Porém, segundo Bahrain, estas condenações provenientes dos líderes religiosos muçulmanos “apenas ecoam nos não-muçulmanos”. “Não têm os muçulmanos a responsabilidade de falar mais alto do que os outros? Precisamos que o mundo veja os manifestantes contra o Estado Islâmico a protestarem nas ruas com a mesma paixão que vimos nas manifestações de Gaza em Londres e Paris”, escreve Bahrain.

Perante a ausência de uma condenação pública, clara e expressiva do Estado Islâmico, o professor de jornalismo chega mesmo a pôr em causa os verdadeiros motivos das manifestações de apoio ao povo palestiniano. Pergunta Bahrani: “Será possível que as manifestações de apoio dos Palestinianos sejam mais bem sucedidas porque os muçulmanos odeiam mais Israel do que odeiam grupos criminosos que sequestraram a narrativa da nossa religião?”

Bahrain é peremptório na conclusão que faz, a comunidade muçulmana se encontra perante duas opções: “ou nós rejeitamos o Estado Islâmico e grupos como estes do modo mais claro possível, ou nós permitimos que eles se tornem o rosto dos muçulmanos. Quando nós dizemos « Isto não é o Islão» estamos a pôr de parte os criminosos como um problema que não nos diz respeito. A verdade é que ninguém assumirá o problema. Pode parecer fácil não assumir responsabilidades, mas o preço a pagar será caro. Porque, para o resto do mundo, esta é a terrível imagem em que os muçulmanos se tornaram. E se não fazemos nada agora, esta imagem será a percepção que o mundo terá de nós nos próximos anos”.

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