Madre Angélica (1923-2016)

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[Publicado no Suplemento Igreja Viva (31/03/2016) do Diário do Minho]

“A única mulher, na história da televisão, a fundar e a gerir um rede por cabo durante 20 anos”, disse Raymond Arroyo, o editor-chefe da EWTN News e autor da biografia oficial da Madre Angélica, ao anunciar a sua morte, este Domingo de Páscoa, aos 92 anos, em Hanceville, Alabama, EUA. Em 1995, a Time referiu-se a ela como “estrela improvável da radiodifusão e, possivelmente, a mulher católica mais influente na América”. Andrea Galli, jornalista do quotidiano católico italiano Avvenire, iniciou o obituário da “freira que entendia os media” com este versículo do Evangelho de Mateus “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: ‘Muda-te daqui para acolá’, e ele há-de mudar-se; e nada vos será impossível” (Mt 17, 20). Sem dúvida a melhor síntese da vida e obra da Madre Maria Angélica da Anunciação. O melhor epitáfio, diríamos nós.

Em 1981, esta freira da Ordem de Santa Clara (ordem religiosa católica feminina de clausura monástica), com apenas 200 dólares e 20 funcionários, coloca-se diante as câmaras de televisão, e desafia toda a lógica humana e todo o bom senso ao transformar a garagem do convento de Our lady of the Angels, em Irondale, Alabama, numa estação de televisão católica, totalmente confessional e devocional. Assim nasce a EWTN (Eternal Word Television Network).

Hoje, a EWTN é o maior rede televisiva católica do mundo. Chega a cerca de 264 milhões de casas em 144 países. Conta com 11 canais e transmite 24 sobre 24 horas em inglês, espanhol, francês e alemão. Possui também uma rádio (WEWN), que pode ser escutada em todo o território dos Estados Unidos e também na América latina e na Europa. Além da televisão e da rádio, a EWTN edita o semanário católico estadunidense com maior longevidade, agora quinzenal, o National Catholic Register, e possui a agência de notícias católica, editada em cinco línguas, a Catholic News Agency. Com um orçamento anual 50 milhões de dólares, a EWTN desde início até hoje sempre rejeitou a publicidade. Vive exclusivamente de donativos e dos produtos religiosos que vende (livros, cd, dvd, artigos religiosos, etc.).

Na minha passagem pelos Estados Unidos, tive a oportunidade de conhecer a EWTN por dentro e de descobrir a razão do sucesso: a fé inquebrantável da fundadora e dos seus colaboradores na Providência, aliada a um fidelidade absoluta ao magistério. “Não estamos cá para pôr em causa a doutrina ou o magistério. Para isso já temos toda uma comunicação social laica. A nossa missão é evangelizar”, dizia-me um alto responsável.

Os colaboradores entendem o trabalho que realizam como um apostolado, mais do que uma mera profissão. E, no entanto, são profissionais exigentes consigo próprios e altamente qualificados. Não menos importante, aliás, muito importante, a doutrina social da Igreja não é entendida pelos gestores da cadeia televisiva como um manual de boas intenções para os “outros”, mas a ser vivida dentro de portas, como exigência evangélica, ética, testemunhal e sinal de credibilidade. Concretamente, salários e condições de trabalho adequados à categoria profissional. Até hoje, nenhum funcionário foi despedido. A capela, onde diariamente é celebrada a eucaristia e transmitida para todo o mundo, é o local mais importante de todo o complexo. Ali os colaboradores iniciam o dia, ali terminam o dia.

35 anos depois da sua fundação a EWTN continua a crescer. Graças uma freira de clausura que acreditou nas palavras de Jesus: “Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo” (Mt 6, 33).

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