Jovens, pirotecnia pastoral e lábios cheios de sede

selfie-papa[publicado no suplemento Igreja Viva (17.092015) do jornal Diário do Minho]

Já não me lembro bem do que falávamos, mas recordo a pergunta do padre Álvaro que veio a talhe de foice: “Qual é a missão de um pároco?”. Após um longo silêncio e uma expressão facial de quem não faz a mínima ideia da resposta, o irmãozinho de Charles de Foucauld lá veio em meu auxílio: “evangelizar duas gerações de jovens”, respondeu ele.

O padre Álvaro bem sabe do que fala. Pelas mãos deste antigo formador de candidatos ao sacerdócio, em Itália, e ex-pároco, já passaram centenas jovens e a alguns conquistou para Cristo.

Sobre a razoabilidade da tese do padre Álvaro também não são necessárias fazer muitas contas, muito menos considerações teológicas. Basta parar um pouco para pensarmos no que acontece quando uma geração não é capaz de suscitar a fé a outra geração. A comunidade pura e simplesmente morre.

A “debandada da juventude”, expressão usada pelo Papa Francisco no discurso aos bispos em visita ad limina, é, infelizmente, um diagnóstico pastoral certeiro. Se não concorda, sugiro que este Domingo faça o seguinte exercício. Passe os olhos pela assembleia presente na igreja a celebrar a eucaristia e coloque as seguintes questões: qual é a média de idades das pessoas presentes? Os jovens participam em algum momento celebrativo? A continuar assim, qual será o futuro desta comunidade cristã? Mas, atenção, diagnóstico não significa prognóstico.

Subscrevo na íntegra a afirmação do Pe. Luís Miguel Figueiredo, tão mal compreendida e tão discutida nestes últimos dias, quando diz: “eu não acho que os jovens se estejam a afastar, os jovens nunca cá estiveram”. Trocando em miúdos, o que ele nos está a dizer é que estes jovens ao fim de dez anos de catequese não aderiram a Cristo. Caso contrário, no pós-Crisma, não abandonariam a Igreja.

Perante este cenário, é normal que nos questionemos sobre o que fazer, como solucionar este problema, e qual será a intervenção pastoral mais adequada.

Há quem ainda esteja convencido que a pirotecnia pastoral e/ou litúrgica faz milagres. Outros há — confesso que eu me situo mais aqui — que o afã por uma pastoral envolvida por uma forte carga emocional, cheia de eventos e experiências novas, gera toxicodependentes espirituais sempre à procura novas e mais intensas sensações, mas não discípulos de Cristo.

Há um caminho possível, uma via ordinária pouco explorada, mas talvez a única possível para fazer uma experiência de fé: amizade. Aliás, por outras palavras, o Pe. Luís entreabriu e apresentou esse caminho ao sustentar que “não pode haver trabalho de evangelização, sobretudo na pastoral juvenil, de massas. Tem de ser ao estilo de S. Paulo, um por um até ao fim”.

O caminho da amizade é certamente um caminho exigente. É hospedar e ser hóspede ao mesmo tempo, ser questionado e questionar, dar respostas e suscitar novas questões, sem a ilusão e a pretensão de ter as respostas na algibeira. Como diz o poeta Daniel Faria: “Aos meus amigos nunca pedi mais / Que um copo de água / Sobre a mesa // E tudo o que me deram foi / Seus lábios cheios de sede // Por isso a minha vida / É / E lhes sou grato” (Daniel Faria, O livro de Joaquim. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p. 70).

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