Isto não vai só com Avé-Marias!

1A aula era sobre os meios de comunicação de inspiração católica. Um dos alunos acabava de apresentar uma rádio católica do género devocional e terminava dizendo que esta lutava pela sobrevivência. Por princípio fundacional, a rádio vivia exclusivamente de donativos excluindo qualquer tipo de publicidade. Um sacerdote nigeriano, impressionado com tamanho cheque em branco à divina providência, não resistiu e exclamou: “Isto não vai só com Avé-Marias!”.

A expressão assenta com uma luva quando se trata de analisar do ponto de vista  comunicacional, e tão-só nesta perspectiva, os casos de Canelas e o da igreja das Caxinas, alvo de atenção dos média nestas últimas semanas.  Os factos são públicos, dispenso-me das sínteses.

No caso de Canelas, o porta-voz do autodenominado grupo “Uma comunidade reage”, deu-se ao luxo de construir a narrativa que bem quis, sem qualquer espécie de contraditório. Tranquilo, bem-falante, de argumentário claro e persuasivo, formulou publicamente questões sem que ninguém, até hoje, desse publicamente, de viva voz e de olhos nas câmaras, respostas. A destempo, com os acontecimentos a dominarem as  agendas mediáticas, surgiu um comunicado e memorando dirigido a um público que vê televisão mas não perde tempo com comunicados e não faz a pálida ideia do que é um memorando. Esta semana, não sei se repararam, novo porta-voz. Um senhor maduro, engravatado, as mesmas questões de sempre, soundbites bem estudados para o directo, qual profissional diante das câmaras. Os porta-vozes da assim chamada “Uma comunidade reage” pensam e dirigem estrategicamente a comunicação. O movimento está condenado ao fracasso, mas deixará um rasto de destruição e divisão na paróquia que demorará muito a esquecer.

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Nas Caxinas, um jornalista lidera e dá voz a um movimento popular contra a construção de um prédio junto à igreja. Pela primeira vez em 40 anos de democracia, a Assembleia Municipal de Vila do Conde reuniu-se, de forma extraordinária, a pedido de cidadãos, para discutir uma recomendação que eles apresentaram. O ex-presidente da edilidade viu-se obrigado a reconhecer publicamente, através de um panfleto, os erros cometidos sob a sua administração. Colocou o actual executivo a negociar com o promotor da obra e sob pressão. Criaram um grupo no facebook para manterem viva a causa e discutirem acções. São notícia nacional. Lembram às autoridades locais que o direito pode provocar a maior das injustiças. E conseguiram o feito invejável de meterem os deputados vila-condenses a dizerem “je suis caxineiro”. Bem mais pacífico que o “je suis Charlie”, convenhamos. Verão as suas pretensões satisfeitas? Não sabemos. Mas se o actual executivo vila-condense não escutar o povo — erro frequente na comunicação política — pode ser o fim do bastião socialista.

No contexto da sociedade hodierna poucas forças sociais são mais fortes do que a prática das relações públicas quando combinadas com as redes sociais. Da direcção estratégica da comunicação derivam consequências importantes para a vida de qualquer organização/instituição: a sua imagem pública, a reputação, o prestígio social.

Seria bom perceber que furtar-se a comunicar é o pior modo de comunicar. Permanecer em silêncio pode ser entendido como um desprezível gesto de arrogância. Seria desejável que a Igreja tomasse consciência de que comunicar ou não comunicar não é uma opção. Comunicar é tão necessário e normal, tão vital, quanto respirar. Todas as organizações e instituições comunicam quer queiram ou não. A questão é como comunicar bem. E isto não vai só com Avé-Marias.

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