Há qualquer coisa que não está a funcionar no jornalismo

Papa Francisco dá uma conferência de imprensa na viagem de regresso da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, Brasil.
Papa Francisco dá uma conferência de imprensa na viagem de regresso da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, Brasil.

Publicado no Suplemento Igreja Viva (30/06/2016) do Diário do Minho

Uma viagem papal é sempre um acontecimento mediático. Aguarda-se com expectativa a recepção ao papa, os encontros ao mais alto nível, os discursos, as suas posições relativamente a matérias controversas e/ou polémicas, os gestos, enfim, tudo é seguido, escalpelizado ao pormenor pelas principais agências de notícias internacionais e jornalistas de todo o mundo. Com Francisco elas ganharam um novo motivo de interesse: as conferências de imprensa sempre realizadas no voo de regresso a Roma. E por vários motivos. O primeiro deles é que se trata de uma verdadeira conferência de imprensa, não uma simulação. Ou seja, os jornalistas podem colocar livremente as questões, sem que estas sejam selecionadas previamente pelo director da sala de imprensa e/ou seus assessores. Depois, porque o papa não se escusa a responder a nenhuma pergunta, mesmo as mais incómodas. Tudo acontece em directo, em primeira mão, de uma forma livre e espontânea.

A conferência de imprensa de regresso da viagem apostólica à Arménia (24 a 26 de Junho) não foi excepção. Tendo sido abordados nove temas da actualidade religiosa e de política internacional — as impressões da viagem à Arménia; o uso da palavra genocídio no discurso proferido no Palácio presidencial; a declaração do Perfeito da Casa Pontifícia e secretário do papa emérito Bento XVI monsenhor Georg Gänswein, que afirmou existir um ministério petrino partilhado; o Concílio Pan-Ortodoxo, que decorreu de 19 a 26 de Junho, na ilha grega de Creta; a possibilidade de que o Brexit possa conduzir à desintegração da União Europeia e à guerra; a próxima viagem do papa (31 de Outubro) a Lund, Suécia, para participar nas comemorações do 500º aniversário da Reforma; a constituição de uma Comissão Teológica para estudar a possibilidade do diaconado no feminino; um comentário às declarações do cardeal Reinarhd Marx numa conferência em Dublin, Irlanda, em que afirmou que a Igreja Católica devia pedir desculpa à comunidade gay por ter marginalizado estas pessoas; por fim, a viagem à Polónia por ocasião da Jornada Mundial da Juventude (27 a 31 de Julho) e a visita a dois campos de concentração: Auschwitz e Birkenau — apenas uma encontrou eco na maior parte da imprensa internacional e nacional: as declarações de Francisco sobre a necessidade de pedir desculpas aos homossexuais. Declarações que, em boa verdade, foram truncadas e que não traduzem o verdadeiro sentido da resposta. Além do mais, Francisco ao iniciar a resposta recordando o conteúdo Catecismo da Igreja Católica está a dizer que as suas declarações não constituem uma novidade, mas sim uma continuidade com o magistério da Igreja. Ao invés, temas como a situação Europeia, a visita aos campos de concentração nazis de Auschwitz e Birkenau e mesmo a Reforma protestante que moldou cultural, política e economicamente a Europa mereceram da grande maioria dos media um tratamento secundário se não foram mesmo ignorados.

O facto é bem revelador da racionalidade ou irracionalidade dos critérios de noticiabilidade, do que é ou não é notícia, do que é ou não importante que o leitor saiba ou reflicta sobre determinada matéria, das chaves de leitura que podem ou não ser oferecidas ao leitor, da leitura acertada e assertiva dos acontecimentos ou falhar o alvo com fait divers e puro entretenimento.

Parafraseando uma das declarações do papa Francisco a propósito da saída do Reino Unido da União Europeia: há qualquer coisa que não está a funcionar no jornalismo e necessitamos, urgentemente e para o bem de todos, dizemos nós, de um jornalismo que seja um intérprete qualificado da realidade, dos acontecimentos. Por outras palavras, um jornalismo que dê notícias.

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