Encíclica Laudato Si ou a parábola de Lázaro e o homem rico

É necessário recuar a 25 de Julho de 1968, data em que foi publicada a encíclica sobre a regulação da natalidade, Humanae Vitae, escrita por Paulo VI, para se encontrar tanta expectativa, polémica e contestação em torno de um documento papal. A encíclica ecológica Laudato Si (Louvado sejas) do Papa Francisco, publicada hoje, entrará para a história como sendo a primeira a ser duramente criticada antes mesmo de o texto ser conhecido.

A ilustrar bem o nível de apreensão e ansiedade de alguns círculos políticos e económicos, provenientes sobretudo dos Estados Unidos, está o artigo publicado no semanário católico inglês The Tablet (13.06.2015, pp. 6-7), com o sugestivo título “Hostile Climate” (Clima hostil). Além do desfiar de um conjunto de críticas ao documento, vindas sobretudo de membros do Partido Republicano, de direita, dos Estados Unidos, Michael Winters, autor do artigo, escreve: «os políticos não são os únicos Americanos nervosos com aquilo que o Papa possa dizer. Empresas multinacionais têm feito lobbying junto dos bispos estadunidenses — e no Vaticano — para influenciar o texto final».

Compreende-se o “nervosismo”. A encíclica Laudato Si não se esconde atrás eufemismos nem faz uso do politiquês quando se trata de retratar a realidade e de denunciar os seus principais responsáveis. Nomeadamente «os poderes económicos» que «continuam a justificar o sistema mundial actual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente» (LS, 56).

É natural que hoje, nos próximos dias e até semanas, os comentários e controvérsias relativas ao documento se polarizem em dois grandes eixos: os que julgam o papa latino-americano demasiado à esquerda e incapaz de compreender a economia de mercado e os que vêem um pontífice preocupado com a real dimensão da crise ecológica e das suas trágicas consequências. Insistir em colocar o Papa à esquerda e catalogá-lo como comunista é, no mínimo, ignorar a Doutrina Social da Igreja e de tudo quanto foi escrito pelos seus predecessores. No máximo, é desonestidade intelectual. Já pôr em causa a validade científica da crise ambiental em curso é bem mais problemático. No entanto, o Papa deixa-nos tranquilos quando escreve que a síntese à crise ecológica, feita no primeiro capítulo da encíclica colhe «os melhores frutos da pesquisa científica actualmente disponível» (LS, 15).

No vai e vem das acesas discussões a que vamos assistir e ouvir, o essencial pode-nos passar ao lado, mais uma vez. Como bem diz Meghan Clark, professora assistente de teologia, na Saint John’s University, na cidade de Nova Iorque, «as implicações das alterações climáticas não são política ou cientificamente controversas para os milhões que sofrem com a seca, com fome, com inundações ou que ficam desalojados em consequência dessas mesmas alterações. E acrescenta: «falhar em reconhecer o seu sofrimento é semelhante à incapacidade do homem rico em ver Lázaro fora do portão».

E, já agora, sabem como termina a parábola de Lázaro e o homem rico?

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