Do TripAdvisor ao ChurchAdvisor? (II)

One parish adReflectir o uso da internet e das redes sociais sob o ponto de vista moral do bom ou mau uso tem tanto de simplista quanto redutor. O mesmo se pode dizer sobre a visão da rede como um mundo paralelo à realidade, como se milhões de pessoas que usam as redes sociais vivessem numa esquizofrenia permanente de uma vida dupla entre a vida real e a vida na rede.
Já Bento XVI, na 47ª mensagem para o Dia Mundial para as Comunicações Sociais, dizia que a rede é um espaço existencial, sobretudo para os mais jovens, que configura e determina a percepção da realidade e dá forma a novas dinâmicas de comunicação. Não se trata, portanto, de desconsiderar a dimensão ética mas de superá-la e colocá-la como um item de um discurso bem mais alargado.
O caso de Paul Y., que depois de ter participado em duas celebrações de eucaristia comenta e avalia a numa aplicação de avaliação de negócio locais como Yelp, mas que poderia ser o TripAdvisor ou outra, ilustra bem o que afirmamos. A avaliação deste católico estadunidense não viola os princípios fundamentais dos Direitos do Homem, não ofende o bom nome de terceiros, não contém acusações sobre a vida privada de terceiros e não contém linguagem imprópria. Mas não serão estes dados secundários, até irrelevantes, na equação do problema? Colocando a questão de outra forma: são mais problemáticos os comentários, críticas e avaliações, ou a percepção e/ou convicção, inconsciente ou consciente, de que a escolha da paróquia está sujeita às mesmas regras de avaliação, concorrência, competição e gosto pessoal? Entendo, por isso, que o simples uso destas plataformas para a avaliação das paróquias é já, por si, pernicioso, mesmo quando feito pelo maior dos santos. Imagine-se, agora, o uso malévolo destas aplicações, quais “livro de reclamações” ou “lavadouros públicos”, como escreveram Bento Oliveira e João Aguiar, respectivamente, no Facebook, a propósito do primeiro texto.
Porém, a questão é muito mais complexa, mesmo sem comentários e avaliações, mesmo sem a ameaça de um ChurchAdvisor no horizonte.
Os dados não enganam. Na Arquidiocese de Braga, e imagino que a realidade não seja muito diferente noutras dioceses, o que as pessoas mais procuram na página da internet é o horário das missas. Do mesmo modo que muitas paróquias têm o seu sítio na rede e o seu boletim, outras começam a entrar no mundo das aplicações móveis, onde disponibilizam toda a informação necessária aos seus paroquianos. Nos Estados Unidos, aplicações como ParishWorld Mobile e OneParish ganham cada vez mais utilizadores.

Com a aplicação OneParish instalada no smartphone podemos localizar, em todo território dos Estados Unidos, as paróquias, encontrar informações sobre horários das missas e confissões, o nome do pároco, vice-pároco, etc. Em férias ou em viagem de trabalho, ao fim de semana ou em qualquer dia da semana, por motivos espirituais ou por simples curiosidade, no contexto actual, o fiel católico decide quando, onde e, em certo sentido, até como celebrar a sua fé. Há algo de novo aqui? Nada, absolutamente nada. A tecnologia apenas permitiu exponenciar uma realidade já existente, dito de outro modo: a passagem da fé a la carte à missa a la carte e paróquia a la carte ficou à distância de um clique.

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