Do #JeSuis ao #PrayFor

monde

Pouco mais de um ano depois do atentado terrorista ao semanário satírico francês Charlie Hebdo, em que ficou célebre o slogan cunhado sob a forma hashtag[1]Jesuischarlie” (eu sou charlie), já poucos se arriscam a ser uma outra coisa qualquer. Não porque escasseie a solidariedade para com as vítimas. Esta permanece intacta. Em Bruxelas, tal como em Novembro passado, nos atentados de Paris, foram muitas as pessoas que abriram as portas de suas casas para darem refúgio e abrigo a quem se encontrava sem transportes públicos para regressar a casa. Muitos taxistas transportaram pessoas sem cobrar pelas viagens. E a solidariedade online também não faltou. O Facebook activou a funcionalidade Safety Check (Centro de segurança), que permite, em caso de catástrofe natural ou de origem humana, aos usuários da rede social informar os aos seus contactos que estão em segurança e ver se os outros também estão bem. No Twitter, líderes mundiais e uma multidão de anónimos repudiaram os atentados e manifestaram a sua solidariedade, com uma particularidade: as hashtags que se popularizaram foram “PrayForBelgium” (Reza pela Bélgica) e “PrayForTheWorld” (Reza pelo Mundo). Importa recordar que na sequência dos atentados de Paris as redes sociais renderam-se à hashtag PrayforParis”.

Uma das possíveis explicações para a passagem do “eu sou” para o “rezar por”, que provavelmente não resiste a um estudo científico, mas válida enquanto opinião, é que identificando-nos e solidarizando-nos com as vítimas (Je suis) rejeitamos qualquer ligação e/ou reminiscência com o que jornal Charlie Hebdo representa: provocação gratuita, agressividade verbal, linguagem abjecta e intolerância religiosa. Mas a explicação parece-nos insuficiente. Entendemos que o sentido profundo desta adesão ao apelo à oração, nestes casos concretos, corresponde a uma atitude fundamental do ser humano tão básica e natural quanto ter fome e sede, isto é, a de levantar os olhos para os céus à procura de uma palavra, uma resposta, uma consolação, uma ajuda. É o nosso primeiro pedido de socorro. O reconhecimento da necessidade da intervenção de um Outro que venha em auxílio das nossas impossibilidades e a confiança de que as nossas preces serão atendidas. Como dizia S. Teresa do Menino Jesus, a oração: “é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria”.

Não deixa de ser paradoxal que numa Europa laica, frágil, com mais problemas do que soluções, com leis cada vez mais restritivas para exercício livre e público da pluralidade das convicções religiosas, os seus cidadãos não só confiem no poder da oração como exercício activo de solidariedade como aí encontrem um fundamento comum e pacífico para o seu futuro.

[1] Hashtag é uma etiqueta, palavra-chave, antecedida pelo símbolo #, muito usada nas redes sociais, que serve para categorizar informação e estar a par dos assuntos mais importantes do momento.

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