Diplomacia: a misericórdia como processo político

Pope Francis addresses a joint meeting of Congress on Capitol Hill in Washington, Thursday, Sept. 24, 2015, making history as the first pontiff to do so. Listening behind the pope are Vice President Joe Biden and House Speaker John Boehner of Ohio. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)
Pope Francis addresses a joint meeting of Congress on Capitol Hill in Washington, Thursday, Sept. 24, 2015, making history as the first pontiff to do so. Listening behind the pope are Vice President Joe Biden and House Speaker John Boehner of Ohio. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)

É inegável o interesse com que nestes últimos tempos a comunidade internacional segue o pontificado do papa Francisco e a actividade diplomática da Santa Sé. Aliás, nesta mesma coluna já tivemos a oportunidade de aflorar o modo como o papa tem vindo a liderar e a definir a agenda internacional, sobretudo a partir da encíclica Laudato Si’. A tal ponto que hoje para um político, independentemente do quadrante político em que se situa, o melhor argumento de autoridade é mesmo citar o papa. Ainda que a tentação de instrumentalizar as suas palavras seja grande.

Perante este quadro, não resulta estranho que no último número da Civiltà Cattolica[1], o jesuíta e director da revista, António Spadaro, analise os traços fundamentais diplomacia e da inteligência geopolítica de Francisco numa perspectiva assaz sui generis: a misericórdia como processo político. Isto é, em que medida se pode afirmar que a misericórdia tem um valor político e em que modo deve ser entendida como uma forma de agir política e diplomática.

O mote foi dado pelo próprio Francisco no habitual discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé para as felicitações de bons votos, no passado 11 de Janeiro. Centrando o seu discurso numa reflexão «sobre a grave emergência migratória», Francisco revelou que «a misericórdia foi, de certo modo, “o fio condutor”» que guiou as suas viagens apostólicas no ano passado.

Segundo Spadaro, para Francisco é por demais evidente que a acção de Deus não se limita à vida das pessoas, mas também intervém nos processos históricos e das nações. Tal convicção funda-se no dado revelado, na economia da salvação. Uma acção divina em que «a potência da misericórdia muda o significado dos processos históricos». Traduzindo, a misericórdia como categoria política, significa na visão de Francisco, «não considerar nunca nada nem ninguém como definitivamente perdidos nas relações entre nações, povos e Estados», sintetiza o jesuíta. Esta é a razão pelo o qual o papa adopta, ainda segundo Spadaro, uma visão poliédrica, multipolar, livre, incompleta e aberta, na abordagem às situações de crise internacional, «colocando no centro a paz social e a inclusão dos mais vulneráveis». Por exemplo, quando Francisco aborda a perseguição e o martírio dos cristãos no Médio Oriente ele não adopta uma postura que alimente um sentimento islamofóbico, mas incarna a radicalidade evangélica. Francisco qualifica os terroristas de «pobre gente criminosa». «Em filigrana, vemos sempre o pecador — neste caso o terrorista — como “o filho pródigo” e nunca como uma espécie de incarnação diabólica», comenta Spadaro. Que é isto se não uma concretização escandalosa do amor aos inimigos pedido por Jesus!?

Como confidenciava um embaixador asiático, de formação xintoísta, descrevendo a diplomacia da Santa Sé ao ex-núncio apostólico Mullor García, «a vossa diplomacia é atípica: não depende tanto como outras diplomacias das ideias expostas no Príncipe de Maquiavel (…) a vossa primeira fonte ideológica e prática é sempre o Evangelho, e o Evangelho não é facilmente manipulável. Além do bem da Igreja católica, pensais no bem de todos os crentes e de todos os homens»[2].

[1] Antonio Spadaro S.I., “La diplomazia di Francesco. La misericordia come processo politico” in La Civiltà Cattolica 167 (2016, I), 209-226.

[2] Justo Mullor García, “Presenza della Santa Sede negli scenari internazionali” in Giovanni Trindenti (org.), Teoria e pratica del giornalismo religioso, EDUSC, Roma 2014, pp. 351-362.

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