Diaconisas na Igreja? A pergunta é mais importante do que a resposta

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Publicado no Suplemento Igreja Viva (26/05/2016) do Diário do Minho

Ainda às voltas com apresentações, interpretações e implicações pastorais da Exortação Pós-Sinodal Amoris Laetitia, e já o Papa Francisco lança mais um assunto eclesialmente controverso: a constituição de uma Comissão para estudar a possibilidade do diaconado feminino. Francisco não dá sinais de abrandar o seu ímpeto reformador. O inesperado anúncio aconteceu durante a XX Assembleia Plenária da União das Superioras Gerais, no passado 12 de Maio, no Vaticano, na sequência de uma sessão de perguntas e respostas entre Francisco e as religiosas.

Quem de perto segue o pontificado sabe que Francisco não improvisa. Mesmo quando não segue o discurso escrito. Desde as homilias matinais na capela da Casa Santa Marta, às frases de efeito, aos gestos, nada em Francisco é fruto do acaso, mas tudo muito bem pensado e discernido na oração, certamente. É um estratega, não fosse ele um jesuíta.

Seria ingénuo pensar que Francisco, ao fazer este anúncio, não saberia que iria causar duas reações diametralmente opostas: apreensão e medo em quem vê no diaconado feminino o cavalo de Troia do sacerdócio, e esperança e gáudio de quem vê na decisão uma porta meia-aberta para quem tanto o reclama e o deseja. E, no entanto, nem Francisco quer clericalizar as mulheres, nem fecha a possibilidade de um exercício no feminino do diaconado. Caso contrário teria liminarmente rejeitado considerar a questão, como já o fez quando questionado sobre a possibilidade da ordenação de mulheres. “No que diz respeito à ordenação de mulheres, a Igreja já se pronunciou e disse ‘não’. João Paulo II pronunciou-se com uma formulação definitiva, essa porta está fechada”, respondeu aos jornalistas no avião que o trazia de regresso a Roma depois da Jornada Mundial da Juventude 2013, no Rio de Janeiro, Brasil.

Independentemente da conclusão da Comissão que vier a ser criada, — manter as coisas tal como estão ou ordenar mulheres como diáconos — o abrir à discussão desta matéria conduzirá, por si só, a efeitos muito concretos no catolicismo, deduz o jornalista estadunidense David Gibson num artigo intitulado How the pope’s opening on women deacons can change catholicism (Como a abertura do papa às mulheres diáconos pode mudar o catolicismo). David Gibson considera pelo menos três efeitos concretos:

  1. O início de uma genuína exploração da teologia no feminino e da participação das mulheres na vida da Igreja que clarificará “exactamente quais as áreas abertas, e porquê, ou porque não”.
  2. O início do aprofundamento da teologia do diaconado. Ou seja, o que é que significa exactamente ser diácono, não só sobre as mulheres como diaconisas, mas a própria teologia do diaconado na sua globalidade.
  3. Vai impulsionar a dinâmica de diálogo e discernimento deste pontificado. Com Francisco já todos percebemos que não há respostas pré-fabricadas, de algibeira. Ele não só está aberto e disponível para discutir com sinceridade e transparência as propostas que lhe são apresentadas, como quer que “o discernimento seja o processo através do qual a Igreja toma decisões”, como assinala o padre jesuíta Thomas Reese comentando a resposta do Papa à questão da ordenação de mulheres diaconisas.

Uma análise retrospectiva dos dois sínodos sobre a família, e salvaguardadas as devidas diferenças, permitem-nos antever que mais fecunda que a resposta, que acreditámos ser um sim, é mesmo a pergunta.

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