Charlie Hebdo e as urgências teológicas

150107-charlie-hebdo-gunmen-jsw-958a_9247a348a451b96b8d427480a57d924dCaminho fácil e pouco arriscado é reduzir o ataque terrorista ao jornal satírico francês a um atentado contra a liberdade de expressão. Mesmo considerando as várias análises que redundam sempre nas leituras políticas, geopolíticas, troca de informações entre agências de informação e relações diplomáticas. A leitura religiosa segue, regra geral, o sentido unívoco, simplista e resume-se ao slogan: “Isto não tem nada a ver com o Islão”. Sim, é verdade, não reflecte a fé no Islão. Mas não podemos negar que tem tudo a ver com um modo particular de professar a fé. Caso contrário, como explicar que dois homens executem 12 pessoas ao som do refrão Allahu Akbar (Deus é grande) e saiam do edifício do jornal gritando: “Vingamos o profeta Maomé. Matamos Charlie Hebdo!”!?

Há, na opinião Nicolas Steeves, sj., (professor de teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma), urgências teológicas. Num artigo publicado na página online da revista francesa La vie (lavie.fr), Steeves escreve que os teólogos devem contribuir na resposta a duas questões, duas urgências: repensar a função do “crer” e repensar o que habita o coração do homem.

Segundo o teólogo, repensar a função do crer significa ultrapassar a visão conflitual e promotora de violência presente em duas visões diametralmente opostas: a teoria do cepticismo (não acredito em nada nem em ninguém) e a teoria do fideísmo (ninguém tem o direito de meter em causa aquilo em que acredito). A reflexão teológica sobre a fé é, por isso, um contributo fundamental para cada um compreender quanto acreditar, ter confiança e ter fé, “tecendo assim a trama de toda a vida humana”. Steeves diz que os teólogos podem ajudar a pensar uma “confiança incrédula”, uma confiança que não é cega. Já no que diz respeito ao repensar o que habita o coração do homem, o jesuíta diz que a sociedade “balanceia entre duas visões humanas que causam cada uma a violência. De uma parte, a visão naïf de Rousseau (o homem naturalmente bom mas corrompido pela sociedade, o dinheiro, etc..).

Por outro lado, a visão pessimista de Hobbes (o homem é um lobo para o homem). A visão teológica é realista: “o homem é bom mas sob a influência de um mal profundo”. E escreve: “As explicações da sociologia e da psicologia não são suficientes. Podemos por em prática todas as políticas sociais e todas as psicoterapias que quisermos: a violência permanece no coração do homem”. Porém, “a teologia oferece uma visão do homem que deve e pode ser salvo do mal. Para dizê-lo em termos clássicos, a teologia do “pecado original”. E, adverte o teólogo, se as palavras “pecado original” causam medo ou comportam um peso de culpabilidade insuportável, compete aos teólogos encontrarem novos modos de o dizer. Agora, negá-lo é “fugir da realidade, perder-se no idealismo naïf ou no desespero punitivo”.

Por último, Steeves pede aos teólogos para reflectirem seriamente como comunicar o pensamento teológico: palavras, imagens, histórias, filmes, canções, poemas ou discursos conceptuais… Tudo isto pode ajudar as nossas sociedades não só a “viver juntas”, mas a “fazer corpo”. “A fragmentação do corpo humano e do corpo social é a verdadeira bomba que está prestes a explodir”.

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