Category: Sínodo da Família

Amoris Laetitia

1460164145059

Publicado no Suplemento Igreja Viva (21/04/2016) do Diário do Minho]

Nota prévia. A Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (Alegria do Amor) arrisca-se a ser mais um daqueles textos que todos citam mas que poucos leram. O que se segue é apenas convite à leitura integral do documento. Continue reading

Sínodo 2015: respostas fiéis e corajosas

sinodo_familia_vaticano_2015

(publicado no suplemento Igreja Viva (11.12.2014) do jornal Diário do Minho)

Na última Assembleia extraordinária dos Bispos sobre a família o Papa Francisco encorajou os padres sinodais a falarem com franqueza e liberdade. Agora, no documento-base (“lineamenta”) para o Sínodo de 2015 (4 a 25 de Outubro), constituído pela Relação final e 46 questões, Francisco pede “respostas fiéis e corajosas” da parte dos Pastores e do povo de Deus. O objectivo do questionário é claro: “facilitar o devido realismo na reflexão de cada episcopado, evitando que as respostas possam ser dadas segundo esquemas e perspectivas próprias de uma pastoral meramente aplicativa da doutrina, que não respeitaria as conclusões da Assembleia sinodal extraordinária, e afastaria as reflexões do caminho já traçado”. Trocando em miúdos: é imperativo (re)pensar a pastoral familiar e não podem ser dadas as mesmas respostas de sempre.

Há já quem veja neste parágrafo uma tentativa de influenciar as respostas. Angela Ambrogetti, jornalista vaticanista, afirma: “algumas Igrejas locais talvez prefiram um acento mais decisivo sobre a doutrina perante uma prática pastoral amplamente desligada do Magistério”. Talvez por isso, e procurando salvaguardar a pluralidade de posições, na introdução ao questionário coloca-se uma pergunta prévia referente à Relação final: “A descrição da realidade da família presente na Relatio Synodi (Relação final) corresponde a quanto se evidencia na Igreja e na sociedade de hoje? Quais os aspectos que faltam e que se podem integrar?”. Continue reading

Sem vencedores nem vencidos

[publicado no suplemento ‘Igreja Viva’ (23.10.2014, p. 2) do jornal Diário do Minho]

Desengane-se quem pensa que a primeira fase do sínodo da família finalizou no Domingo passado com a beatificação do Papa Paulo VI. Fora da aula sinodal, em ambiente mais distendido, mas sempre focalizado sobre as questões pastorais difíceis, o debate continua. Nesta segunda-feira passada, os cardeais Reinhard Marx, Luis Antonio Tagle, Velasio de Paolis e Mauro Piacenza, marcaram presença na imprensa italiana e as suas posições fazem prever um ano intenso para a Igreja.

No centro do debate o parágrafo 52 da Relatio Synodi — relatório conclusivo da primeira etapa do sínodo constituído por 62 parágrafos — que abre a possibilidade dos divorciados recasados poderem comungar. Não uma abertura generalizada a todos os casos mas a “algumas situações particulares e condições bem precisas, sobretudo quando se trata de casos irreversíveis”. Isto depois de “um caminho penitencial sob responsabilidade do bispo diocesano”. O parágrafo não obteve a maioria qualificada de dois terços dos votos, mas foi aprovado pela maioria e faz parte do documento final. Continue reading

Ousadia e liberdade de expressão

160641830-2f76835e-0ed5-4345-b88e-265f9a92f60a

[texto publicado no jornal Público, 20.10.2014, p. 6]

Creio que nunca a designação de Assembleia Extraordinária foi tão apropriada para qualificar o sínodo dos bispos sobre família. Nisto, estou certo, até os padres sinodais estarão de acordo. Mas o que é que faz deste sínodo um momento extraordinário na vida da Igreja? A possibilidade de todos participantes falarem claro, sem hesitações e sem medos, “a ousadia da franqueza” tal como o Papa Francisco pediu na abertura dos trabalhos. Continue reading

Entre o matrimónio indissolúvel e a misericórdia

Enzo-Bianchi-vi-spiego-cos-e-oggi-il-Male_h_partb

[Tradução livre do texto ‘Tra matrimonio indissolubile e misericordia’, de Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bose, publicado hoje (12.10.2014), no quotidiano italiano ‘La Stampa’, pp 1 e 25]

Logo depois da eleição do papa Francisco, o cardeal Ravasi declarou: “Respira-se um novo ar há muito esperado”. Hoje, depois de vinte meses de pontificado, podemos dizer que se criou um outro clima no tecido eclesial: um clima de liberdade expressão no qual, com parrésia, cada católico, bispo ou simples fiel, pode deixar falar a sua própria consciência e dizer aquilo que pensa, sem ser logo reduzido ao silêncio, censurado ou até mesmo punido, como acontecia nos últimos decénios.

Isto não significa um clima idílico, porque os conflitos, alguns mesmo duros, estão presentes no seio da Igreja — como já testemunhado nos escritos do Novo Testamento — mas se estes forem vividos sem excomunhões recíprocas, se cada um escutar as razões do outro sem fazer dele um inimigo, se todos procurarem manter a comunhão, então, até mesmo os conflitos são fecundos e servem para aprofundar e dar razões das esperanças que abitam o coração dos cristãos.

Infelizmente pode-se constatar que já há “inimigos do Papa”: pessoas que não se limitam a criticá-lo com respeito, como acontecia com Bento XVI e João Paulo II, mas chegam ao ponto de desprezá-lo. Um bispo que diz aos seus padres que a exortação apostólica Evangelii Gaudium “poderia ter sido escrita por um lavrador” exprime um juízo de desprezo, mas profeticamente declara que aquela carta é legível e compreensível até por um pobre e simples cristão da periferia do mundo. Assim, além das intenções, aquelas palavras de desprezo constituem um elogio. Alguns acrescentam, para deslegitimar a eleição de Bergoglio, que o conclave não decorreu segundo as regras, outros sustentam que há dois papas, os dois sucessores de Pedro mas com funções diferentes… Há muito que conhecemos estas pessoas mais propensas a seguir as próprias hipóteses eclesiásticas do que a objectividade da grande tradição católica na qual vale o primado do evangelho. Continue reading