Category: Igreja Viva

Uma questão de vida ou de morte

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©Ricardo Perna 2012/Familia Cristã / Abertura do Átrio dos Gentios em Guimarães.

Neste momento, o polémico cartaz do Bloco de Esquerda com a imagem de Jesus Cristo e a frase “Jesus também tinha 2 pais”, com o intuito de celebrar aprovação da lei de adopção por casais homossexuais, é tão-somente espuma dos dias. A ordem do dia, no debate público, mais uma vez protagonizado pelo Bloco, é a legalização da morte assistida, a eutanásia. Matéria que consta da agenda bloquista desde 2011. Continue reading

Diplomacia: a misericórdia como processo político

Pope Francis addresses a joint meeting of Congress on Capitol Hill in Washington, Thursday, Sept. 24, 2015, making history as the first pontiff to do so. Listening behind the pope are Vice President Joe Biden and House Speaker John Boehner of Ohio. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)
Pope Francis addresses a joint meeting of Congress on Capitol Hill in Washington, Thursday, Sept. 24, 2015, making history as the first pontiff to do so. Listening behind the pope are Vice President Joe Biden and House Speaker John Boehner of Ohio. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)

É inegável o interesse com que nestes últimos tempos a comunidade internacional segue o pontificado do papa Francisco e a actividade diplomática da Santa Sé. Aliás, nesta mesma coluna já tivemos a oportunidade de aflorar o modo como o papa tem vindo a liderar e a definir a agenda internacional, sobretudo a partir da encíclica Laudato Si’. A tal ponto que hoje para um político, independentemente do quadrante político em que se situa, o melhor argumento de autoridade é mesmo citar o papa. Ainda que a tentação de instrumentalizar as suas palavras seja grande. Continue reading

O nome de Deus é misericórdia e um cristão está sentado na cátedra de Pedro

Italian actor Roberto Benigni and Cardinal Piero Parolin arrive for the presentation of the book ' The name of God is Mercy' (Il nome di Dio e' Misericordia), Rome, Italy, 12 January 2016. ANSA/ETTORE FERRARI
Italian actor Roberto Benigni and Cardinal Piero Parolin arrive for the presentation of the book ‘ The name of God is Mercy’ (Il nome di Dio e’ Misericordia), Rome, Italy, 12 January 2016. ANSA/ETTORE FERRARI

[publicado no suplemento Igreja Viva (14.01.2016) do jornal Diário do Minho]

Com o papa Francisco não há surpresas. É um homem previsível. E não falo da previsibilidade da imprevisibilidade. Embora estejamos consciente ou inconscientemente convencidos do contrário. Passados quase três anos da sua eleição, relendo à distância o seu primeiro Angelus de 17 de Março de 2013, e passando pontificado em revista, a misericórdia está ali, preto no branco, como programa do pontificado. E Francisco é previsível porque o seu pontificado, mesmo em contínuo discernimento, desde o início, é tão simples, claro, concreto e profundo quanto é o Evangelho. A estupefacção perante os gestos, as escolhas e os discursos, essa imprevisibilidade que faz notícia, abre telejornais, gera gostos e partilhas nas redes sociais existe em grande parte porque se ignora o Evangelho. Ignora-se o cristianismo. Ignora-se que na cadeira de Pedro está um cristão, para pedir emprestadas as palavras a Hannah Arendt. A filósofa política alemã de origem judaica, no seu livro Homens em tempos sombrios, tem um texto extraordinário sobre o Papa João XIII intitulado Angelo Gisuppe Roncalli: um cristão no trono de São Pedro de 1958 a 1963. Com ironia, a discípula de Heidegger interrogava-se como era possível que um cristão se sentasse na trono de São Pedro. Perguntava ela, a propósito de João XXIII: “Ele primeiro não teve de ser indicado bispo, e arcebispo, e cardeal, até ser finalmente eleito como papa? Ninguém tinha consciência de quem ele era?” Pelos vistos não. Continue reading

Quando a normalidade é o mal, o bem torna-se notícia

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[publicado no suplemento Igreja Viva (10.12.2015) do jornal Diário do Minho]

A frase é de Giangiacomo Schiavi, jornalista e escritor, e encontra-se no prefácio de um livro que reúne 79 boas notícias publicadas no quotidiano italiano Corriere della Sera e no blog homónimo criado propositadamente para o efeito[1]. A ideia de abrir uma secção do Corriere della Sera dedicada só às boas notícias foi do então director Ferruccio de Bortoli. De Bortoli pediu aos seus jornalistas para alargarem «o olhar sobre aquela pequena grande Itália que não é suficientemente conhecida». Uma Itália, como qualquer outro país, habitada por milhares de «heróis da normalidade» que raramente são capa ou notícia nos jornais. Continue reading

A laicidade merece respeito

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@Ixène 2014 | Terror na República. Aiiiiiiiii. Meu Deus, um presépio!!

Já sabíamos que rezar é uma actividade perigosa com consequências imprevisíveis. S. Francisco de Assis, S. Tomás Moro, S. Inácio de Loyola, S. Teresa de Ávila, Madre Teresa de Calcutá e S. João Paulo II, só para nomear alguns, atestam que a prática do exercício espiritual gera tensões e alterações de ordem política, social e religiosa. Mas ainda não estávamos avisados do potencial de perigosidade da oração do Pai Nosso, quando apresentada sob a forma de publicidade. Continue reading

Os três santos de Bangui

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[publicado no suplemento Igreja Viva (26.11.2015) do jornal Diário do Minho]

O Papa Francisco iniciou, ontem, a sua primeira visita apostólica em África e a 11ª do seu pontificado. Até 30 de Novembro, dia em que termina a visita, o pontífice visita três países: a República Centro-Africana (RCA), o Quénia e o Uganda. Todos os três já visitados por João Paulo II, e o Uganda por Paulo VI.

A viagem acontece numa altura em que o tribunal do Vaticano julga cinco pessoas por alegadamente terem divulgado documentos internos, reservados, sobre as finanças do Estado. Contemporaneamente, a Europa vive em permanente sobressalto com a maior ameaça terrorista da última década. Perante este cenário somos tentados a pensar que a viagem será relegada para segundo ou terceiro plano na agenda mediática. Continue reading

O nosso canto de paz não é o “Imagine” de John Lennon

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Na sexta-feira santa do ano 2003, o padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na basílica de S. Pedro e diante de S. João Paulo II, iniciou a pregação com a letra da canção Imagine de John Lennon:

“Imagina que não há paraíso/ não é difícil se tentares / nenhum inferno debaixo de nós / acima de nós só o céu / Imagina toda a gente / a viver o presente / imagina que não há países. / Não é difícil, verás. / Nenhum motivo para matar ou morrer / e nenhuma religião também (…)”.

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Nem sim, nem não. Caso a caso

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[publicado no suplemento Igreja Viva (29.10.2015) do jornal Diário do Minho]

Cinco dias passados da conclusão do Sínodo da família, já todos percebemos que não ficou tudo igual nem tudo na mesma. Mesmo com todas as tentativas confrangedoras, diga-se de passagem, de minimizar o significado e o alcance do documento final. A aprovação dos parágrafos 84, 85 e 86, que dizem respeito ao discernimento e integração dos divorciados recasados, caso a caso, com a maioria qualificada de dois terços, foi rapidamente alvo de desqualificação por uma minoria, essa sim, supostamente qualificada. A desvalorização do êxito da votação final é fácil de explicar e de entender. Não há empate técnico que salve a face de quem entrou na lógica de vencedores e vencidos ou da famigerada metáfora do sínodo como se de um jogo de futebol se tratasse. Já para não falar de algumas crónicas pejadas de ironia corrosiva de fazer corar qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e que tinham como alvo famílias feridas pelo divórcio. Mas também houve quem imprudentemente se apressasse a apresentar as conclusões do sínodo, antes mesmo de entrar na aula sinodal. Atitude que além de manifestar um claro deficit de diálogo ignora o significado de uma igreja sinodal que o Papa Francisco define como: «uma Igreja da escuta, ciente de que escutar “é mais do que ouvir”. É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, “o Espírito da verdade” (Jo 14, 1), para conhecer aquilo que Ele “diz às Igrejas” (Ap 2, 7). Continue reading

Papa Francisco define agenda internacional

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[publicado no suplemento Igreja Viva (24.09.2015) do jornal Diário do Minho]

Uma nota prévia. Tinha em mente escrever sobre a viagem apostólica do Papa Francisco a Cuba e aos Estados Unidos. Afinal, este é assunto religioso da actualidade. Mas, convenhamos, o sucesso das viagens estava garantido antes mesmo do avião papal descolar. A viagem a Cuba foi, essencialmente, um momento celebrativo da diplomacia vaticana que, sob a batuta de Francisco, facilitou a restabelecimento das relações diplomáticas entre Havana e Washington. Já no que diz respeito à viagem aos Estados Unidos, essa sim com mais motivos de interesse, quer a nível político quer religioso, a festa inicia com a família Obama a estender a passadeira vermelha a Francisco, ao recebê-lo na base aérea militar de Andrews. Uma honra reservada a convidados muito especiais. É certo que os discursos na ONU e no Congresso — onde pela primeira vez um papa discursará — bem como a homília na missa de encerramento do Encontro Mundial das Famílias, em Filadélfia, estão a gerar grandes expectativas. A recepção à encíclica Laudato Si, da parte da direita política estadunidense, não foi de todo positiva Continue reading