Cardeal Schönborn: Amoris Laetitia é o grande texto de moral que esperávamos

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Publicado no Suplemento Igreja Viva (14/07/2016) do Diário do Minho

Desde a publicação, e mesmo antes, da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Letitia (A Alegria do Amor) que muita tinta tem corrido sobre a possibilidade de os católicos que se divorciaram e recasaram civilmente poderem receber a comunhão. Leu-se e lê-se de tudo um pouco. Na maior parte dos casos as análises e interpretações do parágrafo 300 e notas de rodapé 336 e 351, que fazem explicitamente referência à questão, dizem mais sobre o estado de espírito de quem as comenta do que propriamente do conteúdo do texto. Há os que estão em estado de negação, há os que estão numa situação de bloqueio mental, há os que estão reféns das posições rígidas que foram tomando ao longo de dois sínodos, há também muita desonestidade, há, sobretudo, muita falta de amor, recebido e oferecido.

Pensávamos nós que, se dúvidas houvesse, elas teriam ficado esclarecidas no passado dia 16 de Abril deste ano. O papa Francisco regressava da sua histórica visita ao campo de refugiados da ilha de Lesbo, Grécia, e na habitual conferência de imprensa no avião, Francis Rocca, jornalista do Wall Street Journal questionou Francisco sobre se «existem novas possibilidades concretas que não existiam antes da publicação da Exortação ou não?». As novas possibilidades a que o jornalista estadunidense se referia eram, entre tantas outras, o acesso aos sacramentos. A resposta do papa Francisco foi muito clara: «Eu poderia dizer “sim” e… ponto final. Mas seria uma resposta demasiado pequena. Recomendo a todos vós que leiais a apresentação feita pelo cardeal Schönborn, que é um grande teólogo. É membro da Congregação para a Doutrina da Fé e conhece bem a doutrina da Igreja. Naquela apresentação, a sua pergunta terá a resposta».

Se porventura não leram ou viram e ouviram a apresentação, já que esta além de estar publicada na página de internet do Vaticano também se encontra disponível no canal do YouTube do Centro Televisivo do Vaticano, sempre podem ler a recente entrevista do padre António Spadaro, sj, ao cardeal Schönborn publicada na último edição da revista da qual ele é director, La Civiltà Cattolica[1]. Trata-se de uma entrevista incontornável ao intérprete «autorizado» da exortação. Entrevista que teve direito a pré-publicação em dois jornais europeus de referência, como o italiano Corriere della Sera e o francês La Croix, e na qual são abordadas as grandes questões e controvérsias que o documento provocou desde a sua publicação. Desde logo, as várias tentativas de menorizar o documento qualificando-o como uma opinião pessoal do papa. Para o cardeal de Viena não há lugar para dúvidas: a Exortação é um acto do magistério do Pontífice e não a expressão de simples opiniões. Mas vai mais longe: “A Amoris Laetitia é o grande texto de moral que esperávamos desde os tempos do Concílio e que desenvolve as escolhas já assumidas pelo Catecismo da Igreja Católica e da Veritatis splendor. E sobre a questão do acesso aos sacramentos dos divorciados recasados, em síntese, a resposta é esta: é possível que, «em certos casos, aquele que está numa situação objectiva de pecado possa receber a ajuda dos sacramentos», porque nem sempre é «subjectivamente» culpável.

Diziam os padres do deserto que quem é misericordioso para com os outros obrigará Deus a ser misericordioso para com ele, porque Deus obedece aos misericordiosos, pois são como Ele, têm o mesmo coração, isto é, são santos como Ele é santo. Possa ao menos este argumento convencer quem tanto gosta de se colocar no lugar de Deus.

[1] Antonio Spadaro S.I., “Conversazione con il cardinale Schönborn sull’Amoris Laetitia” in La Civiltà Cattolica 167 (2016, III), 132-152.

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