Bose: onde a utopia da unidade dos cristãos é um lugar

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Enzo Bianchi, priore da Comunidade Monástica de Bose e Sua Santidade Bartolomeu, Arcebispo de Constantinopla e Patriarca Ecuménico. © foto Monastero di Bose

Quando se aborda a questão da unidade dos cristãos Enzo Bianchi é uma das personagens incontornáveis do mundo católico. Uma referência. Não por acaso o papa Francisco nomeou-o consultor do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

A 8 de Dezembro de 1965, dia do encerramento do Concílio Vaticano II, Enzo Bianchi começa a viver só numa casa alugada (sem eletricidade e sem água corrente), localizada em Bose, um lugar da freguesia de Magnano, na província de Biella, no norte da Itália. Os três primeiros anos foram vividos na solidão, tendo apenas como companhia a Sagrada Escritura e os Padres da Igreja. Depois chegam os primeiros irmãos: uma mulher e um pastor calvinista. Cinquenta anos passados, a comunidade monástica de Bose tem mais quatro fraternidades (Ostuni, Assis, Cellole e Vivitella) e tem a particularidade de ser constituída por cerca de oitenta monges e monjas provenientes de sete países e de diversas Igrejas cristãs (católicos, ortodoxos e protestantes), sendo cinco presbíteros e um pastor, que vivem na fraternidade, no celibato e na obediência ao Evangelho. «Sem nunca os ter procurado, — assim se pode ler no página da internet da comunidade — mas fruto de um grande dom do Espírito, desde o princípio fazem parte da comunidade cristãos de várias confissões». Este dom do Espírito levou a comunidade a «fazer um compromisso para a Unidade de todos os cristãos na fidelidade à palavra de Cristo: “Que todos sejam um” (Jo 17,21)».

Numa entrevista à revista católica italiana Credere, a propósito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de Janeiro) que estamos a viver, Enzo oferece-nos três pensamentos fortes sobre o ecumenismo.

Primeiro deles é que o ecumenismo «não é uma moda ou sinal dos tempos». O ecumenismo «é importante porque Jesus Cristo o quis quando pediu aos seus que sejam um e fez depender a credibilidade do Evangelho e da mensagem cristã da capacidade dos cristãos de não se dividirem entre si e de praticar a caridade».

Em segundo lugar, «tomar consciência do facto que o Baptismo nos incorpora em Cristo, nos faz seus membros, faz ver sob uma outra luz a relação com os outros cristãos: antes de vê-los como irmãos separados, cismáticos ou que não partilham plenamente a nossa confissão de fé, os considero como membros do corpo de Cristo, como eu». Segundo Enzo, esta mesma convicção é partilhada pelo papa Francisco. De tal modo é assim que a novidade deste pontificado é o convite de Francisco às novas Igrejas evangélicas, carismáticas e pentecostais ao ecumenismo.

Por último, Enzo reconhece que há um longo caminho a percorrer. Os problemas são muito profundos e complexos e «não é fácil chegar à unidade, pensá-la a breve termo, nem mesmo como cristãos das grandes Igrejas tradicionais, históricas». Em Itália, país de maioria católica, como o nosso, Enzo propõe a sensibilização e educação dos católicos para o espírito ecuménico através da «escuta de um pastor ou padre ortodoxo nas paróquias, a participação nalgumas das suas festas e sobretudo ter a coragem de ler obras sobre a fé e espiritualidade do mundo ortodoxo ou evangélico».

Não ignorando a existência de muitos elementos que separam as Igrejas, sejam eles de ordem histórica, doutrinal ou mesmo política, não deixa de ser um sinal de esperança e dom do Espírito a comunhão das Igrejas na dimensão orante do ecumenismo. Comunidades ecuménicas como Bose e Taizé são disso um eloquente exemplo. Aí, a utopia da unidade dos cristãos é um lugar.

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