As uniões gay são uma ameaça à família?

Dimensões do diálogo de Jan Švankmajer
Dimensões do diálogo de Jan Švankmajer

[publicado no suplemento Igreja Viva (9.7.2015) do jornal Diário do Minho]

«Não é impedindo os gay de se casarem — ainda que a Igreja não esteja de acordo com o matrimónio homossexual — ou negando as uniões civis que nós salvaremos as nossas famílias». Não, a frase não é da autoria do cardeal Walter Kasper ou do presidente da Conferência Episcopal Alemã Reinhard Marx, nem de um qualquer padre ou leigo progressista ou pro-gay. A afirmação é do padre Mauro Leonardi, um sacerdote do Opus Dei, assim, tal e qual, sem tirar nem pôr.

Num artigo de opinião publicado no jornal online La croce quotidiano, don Mauro, comenta e discorda a propósito da imponente manifestação (cerca de 1 milhão de participantes), do passado 20 de Junho, em Roma, de famílias católicas contra as uniões civis homossexuais e a propaganda da teoria de género nas escolas italianas.

Segundo o sacerdote italiano, a crise da família tradicional não se deve nem às uniões civis nem ao matrimónio das pessoas homossexuais. «A família está em crise porque nós — nós católicos — imbuímo-la de individualismo, de falsas necessidades, de consumismo, de resignação que depois se transforma em reivindicação», escreve o padre Mauro. E continua, «a família está em crise não porque há pessoas homossexuais, mas porque, talvez, sejamos nós, pessoas católicas e heterossexuais, a traí-la em primeiro lugar, ou então a não honrá-la plenamente».

Para don Mauro o confronto e o entrincheiramento de posições, a declaração de um “inimigo” das famílias e as manifestações públicas com declarações extremadas e acusatórias impedem «aquela reflexão séria, antes de tudo dentro do mundo católico, da qual todos temos absoluta necessidade». Segundo o autor, é preciso «iniciar um discurso honesto e sério sobre a família e de perguntarmo-nos onde, como e quando começamos a trair a família, mais do que pensar que o mal esteja todo lá fora, em “quem nos ataca”».

E porque se trata de reflexão e de questões que todos nós devemos fazer, don Mauro não se furta a colocar algumas, talvez mesmo as mais urgentes. Pergunta ele: «Por que razão os nossos avós estão no asilo? Por que razão não existe a família intergeracional alargada? Por que razão os nossos filhos preferem conviver — isto é rejeitam a instituição do matrimónio — e, ao invés, as pessoas homossexuais desejam tal instituição? Por que razão não existe mais solidariedade entre as famílias e estamos todos preocupados com a nossa privacidade e autonomia? O que é que nos está a acontecer?».

É inegável que o texto de don Mauro coloca sob exame um género de catolicismo ruidoso e militante que, consciente ou inconscientemente, toma posições de confronto estéril, do género «nós e os outros». E bem. Pois parece-nos que o único caminho viável no diálogo entre Igreja e Mundo, se faz através da força serena e fértil do testemunho cristão.

 

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