Arcebispo de Braga tem razão e os políticos não estão errados

Jorge-Ortiga1A passada semana foi, anormalmente, política e religiosamente inspiradora. «Espero não ser castigado pelo meu pároco por dizer isto, mas não deixarei que os meus bispos, os meus cardeais ou o meu Papa me ditem a política económica» disse Jeb Bush, quando questionado sobre a recente encíclica do Papa Francisco, na abertura oficial da sua campanha à presidência dos Estados Unidos. Jeb Bush é um católico convertido há 25 anos, irmão de George Bush, ex-presidente dos Estados Unidos, e um dos candidatos do Partido Republicano à Casa Branca.

 

No mesmo dia, quarta-feira, 17 de Junho, Paulo Rangel, católico e eurodeputado do PSD, apresentou no Porto, mais concretamente no Palácio da Bolsa, o livro Jesus e a política: Reflexões de um mau samaritano, e pregou, segundo reza a crónica do Público, um Jesus que «não tinha projecto político, mas era um provocador político». Sexta-feira, D. Jorge Ortiga, na apresentação à comunicação social da Laudato Si, cometeu o «atrevimento», nas palavras do Arcebispo, de propor aos partidos políticos que incluíssem as preocupações da encíclica nos programas eleitorais das legislativas. As declarações feitas à RTP foram replicadas na página do Facebook da Arquidiocese e suscitaram um animada discussão na rede social, provocada por católicos e não católicos que questionam a legitimidade da Igreja «se meter em política ou economia».

D. Jorge Ortiga gostaria que os partidos políticos incluíssem as preocupações da encíclica do Papa Franscisco nos…

Posted by Arquidiocese de Braga on Sexta-feira, 19 de Junho de 2015

 

É neste contexto que nos parece urgente ressuscitar dos arquivos uma nota doutrinal da Congregação para a Doutrina da fé sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política. Nela se pode ler que «o Magistério da Igreja não pretende exercer um poder político nem eliminar a liberdade de opinião dos católicos em questões contingentes». Porém, «como é sua função própria, instruir e iluminar a consciência dos fiéis, sobretudo dos que se dedicam a uma participação na vida política, para que o seu operar esteja sempre ao serviço da promoção integral da pessoa e do bem comum». Nesse sentido, e continuando a citar a mesma nota doutrinal, «o ensinamento social da Igreja não é uma intromissão no governo de cada país». Mas, atenção, que ninguém duvide «que põe um dever moral de coerência aos fiéis leigos, no interior da sua consciência, que é única e unitária». Como escreveu o Santo Papa João Paulo II na Exortação Apostólica pós-Sinodal Christifideles Laici, sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo: «não pode haver, na sua vida [entenda-se do cristão], dois caminhos paralelos: de um lado, a chamada vida “espiritual”, com os seus valores e exigências, e, do outro, a chamada vida “secular”, ou seja, a vida de família, de trabalho, das relações sociais, do empenho político e da cultura».

Jeb Bush não erra quando diz que não tem de aceitar que lhe ditem a política económica. Na verdade, como se pode deduzir da afirmação de Paulo Rangel, não existem soluções católicas para todas as questões concretas que se colocam na acção política do dia-a-dia. Todavia, a intervenção de D. Jorge Ortiga está em perfeita consonância com o mais elementar da Doutrina Social da Igreja, porque as soluções católicas serão sempre as susceptíveis de estar mais em conformidade com o bem comum. Caso para dizer que o Arcebispo de Braga tem razão e os políticos não estão errados.

PartilharShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Share on LinkedIn0Pin on Pinterest0Email this to someonePrint this page

Post a comment

You may use the following HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>