Amoris Laetitia

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Publicado no Suplemento Igreja Viva (21/04/2016) do Diário do Minho]

Nota prévia. A Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (Alegria do Amor) arrisca-se a ser mais um daqueles textos que todos citam mas que poucos leram. O que se segue é apenas convite à leitura integral do documento.

A chave de leitura da exortação encontra-se na primeira linha do documento: “A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja”. É sobre o amor na família que o Papa Francisco nos fala antes mesmo de falar sobre a doutrina do matrimónio. “E fá-lo num modo tão concreto, tão simples, com palavras que aquecem o coração como aquele boa noite de 13 de Março de 2013”, assinalava o cardeal Schönborn no dia da apresentação pública do documento. Na verdade, para sermos precisos, Francisco, mais do que falar sobre a família, fala com as famílias. Entra nas nossas casas de mansinho, coloca-se à mesa, escuta sem julgar e ilumina-nos com o Evangelho. Bem, Francesco Miano e Giuseppina de Simone, casal italiano que participou nos dois sínodos e que interveio na conferência de imprensa de apresentação da exortação, dizem tudo isto de um modo muito mais belo: “É como se o Papa dissesse: paremos um pouco, deixemos por momento o barulho, a correria, as preocupações, as muitas vozes que quotidianamente nos invadem ao ponto de nos anularem, e procuremos escutar, escutar a nossa vida naquilo que tem a dizer-nos verdadeiramente, escutar o que acontece dentro de nós, aquilo que move o nosso coração. Porque é nesta escuta que aprendemos a vislumbrar a presença do Senhor”.

Francisco não fala só com algumas famílias, fala com todas as famílias. A palavra de ordem é “integrar a todos” (AL 297). Aliás, na redacção do documento é notória a preocupação de não etiquetar ou catalogar as famílias, nomeadamente as que fizeram a experiência da falência das relações e recomposição. Como resposta às situações de fragilidade, complexas ou chamadas irregulares o Papa apresenta três verbos, três acções fundamentais: acompanhar, discernir e integrar. E é aqui que se colocam alguns dos mais sérios desafios pastorais às conferências episcopais, às dioceses, às paróquias, aos párocos que no terreno se vêem diariamente questionados e confrontados com as situações que “não correspondem ao que o Senhor nos propõe” (AL 7). Como operacionalizar a integração, o discernimento e o acompanhamento? Não se trata só (e já é muito!) da questão de quem, depois de um “responsável discernimento e pastoral dos casos particulares” (AL 300, cf. notas 336 e 351), poderá aceder ou não aos sacramentos da comunhão e reconciliação. Ou se pode ou não ser padrinho/madrinha, catequista, leitor,… Por exemplo, haverá que pensar e até legislar sobre a situação dos professores de educação moral religiosa e católica divorciados recasados que estão impedidos legalmente de darem aulas.

Perante este cenário, compreende-se que Francisco, logo no segundo parágrafo da exortação, reconheça “a complexidade dos temas tratados” e “a necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais”.

Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, na sua conta twitter, indicou-nos já o correcto modo de realização deste work in progress (processo em curso) que é a exortação: ler o texto com calma, sem precipitações e enviesamentos ideológicos, e estudá-lo em profundidade.

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