A urgência de devolver a palavra aos fiéis

leigos_-sinodo_realidade-familiarProcurando escolher o acontecimento do ano da Igreja Católica e antecipando o próximo ano ocorre-me uma única palavra: família. Assim, tal e qual. Sem mais. Perguntará o leitor, bastará a palavra “família” para evocar o acontecimento católico do ano 2014 e do próximo ano? Sim, basta. Mas atenção, enquanto epifenómeno ou ponta do icebergue, se preferirem. Explico-me. O movimento reformista em curso, iniciado pelo Papa Francisco, tem em vista um novo modelo eclesial. E quem o diz é Dario Vitali, professor de eclesiologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Disse Vitali à Rádio Vaticana: “Mais do que a questão da pastoral da família, que é de incontornável importância, o Sínodo levanta sobretudo a questão de um novo modelo de Igreja. Foi Francisco, no seu discurso conclusivo de 18 de Outubro, a falar de um caminho «sinodal e colegial», trabalhoso por definição. Um caminho que deve favorecer a auscultação do povo de Deus, o que significa dar relevo ao sensus fidei, à voz do Espírito que passa através dos baptizados.Francisco imprimiu um dinamismo que favorece a circularidade, a reciprocidade da auscultação entre pastores e povo de Deus”. Eis a novidade, eis o acontecimento: na reflexão sobre a família emerge um novo modelo eclesial, em progresso, que, a pouco e pouco, se vai definindo.

Pio XII se lamentava da falta de opinião pública na Igreja. Embora, importa referir, uma coisa é a opinião pública e outra o sensus fidei. Duas realidades que não se devem confundir. Francisco, todavia, valoriza e promove as duas realidades: opinião pública eclesial e o sensus fidei. Recuo a Setembro de 2009, quando o monge italiano e prior da comunidade de Bose, Enzo Bianchi, proferiu uma notável conferência no Auditório Vita. Os vídeos estão disponíveis no canal do Youtube e merecem servisualizados.

Confidenciou o monge italiano que um dia o Papa Bento XVI lhe perguntou o que era mais urgente na vida Igreja. A resposta de Enzo Bianchi foi: “Santo Padre, que se inicie um caminho para recompreender o sensus fidelium na Igreja. O sensus fidei que pertence a todo o povo de Deus. Se existir este «sentido» haverá uma opinião pública e teremos um laicado não áfono, não silente e verdadeiramente uma possibilidade de koinonia, comunhão”.

A Assembleia Extraordinária dos Bispos sobre a Família, que decorreu no passado mês de Outubro, ilustra bem como a opinião pública e o sensus fidei são fundamentais na tomada de decisões em Igreja. Ainda na semana passada, o Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, em entrevista ao jornal online “Observador”, explicava como a recepção do relatório intermédio pela opinião pública influiu e alterou o curso dos trabalhos. Esta semana, a Arquidiocese de Braga ao publicar online os Lineamenta do Sínodo para que sejam estudados e as 46 questões colocadas sejam respondidas pelos sacerdotes, membros dos Institutos de Vida Consagrada, diversas associações e movimentos que procurem reflectir, pessoalmente e em grupo, abre a todos a possibilidade de se pronunciarem sobre o que a todos diz respeito. O povo de Deus tem razão quando diz que a Igreja somos todos nós, falta é tornar efectiva esta sinodalidade (caminhar em conjunto): Papa, bispos, presbíteros e leigos. É urgente devolver a palavra aos fiéis.

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