A orla do manto: tocar Jesus no ambiente digital

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Publicado no Suplemento Igreja Viva (23/06/2016) do Diário do Minho

O cardeal Carlo Maria Martini (f. 31-08-2012), reconhecido biblista e pastor da Igreja ambrosiana durante quase um quarto de século (1979-2002), deverá ter sido um dos poucos bispos, senão mesmo o único, a dedicar uma carta pastoral aos meios de comunicação social (1991-1992). Em A orla do Manto[1]assim se intitula a cartaMaria Martini estabelece uma relação de todo insuspeita entre os meios de comunicação e a cena evangélica da mulher que tocando a orla do manto de Jesus fica curada[2]. Neste milagre emblemático de Jesus, ele identifica três realidades que caracterizam uma sociedade condicionada pelos média: a massa, a pessoa e a comunicação.

A massa é a multidão anónima que comprime Jesus por todos lados. São muitos os que tocam Jesus fisicamente mas nada acontece. Nenhum se distingue com «um rosto ou um desejo próprio». «É a imagem das massas que se qualificam como fruidores passivos dos meios chamados, justamente, de “massa”».

No entanto, desta multidão anónima, emerge uma pessoa, uma mulher com «um projecto e uma vontade precisa», sobretudo com uma fé enorme, ao ponto de pensar que bastaria tocar a orla do manto de Jesus para ficar curada. E assim aconteceu. Mas a história não acaba aqui. Jesus quer saber quem o tocou. É neste momento que esta mulher, nas palavras do cardeal Martini, «vive um processo de forte “personalização”, entra num contacto autêntico com Jesus (…). Da massa emergiu uma pessoa».

Neste episódio, como tantos outros dos evangelhos, a novidade não se encontra no facto da pessoa emergir através da “comunicação de uma força curadora» que tem a sua origem em Jesus. A diferença é que nas outras cenas evangélicas a comunicação de Jesus é directa: ele fala, ordena e toca. Neste caso, «é suficiente uma orla do manto, esfiado e empoeirado, para estabelecer a possibilidade de um encontro», assinala Martini.

Não será um abuso afirmar que as redes sociais, e pensamos nomeadamente no YouTube, Facebook, Twitter e Instagram, quando colocados ao serviço do evangelho são hoje uma extensão da orla do manto de Jesus. A presença do Papa Francisco no Twitter e no Instagram, no nosso entendimento, obedece precisamente a esta lógica, ou seja, a de habitar um ambiente de vida (não mais mero instrumento de comunicação), onde é possível, ainda que de um modo muito marginal, tocar Jesus e a partir daí inaugurar uma verdadeira comunicação humanizante e até mesmo salvífica.

Se a Igreja deve estar onde as pessoas estão então a missão, hoje, passa inevitavelmente pelo ambiente digital. Isto significa que no desenho dos programas pastorais, e pensamos concretamente nos diocesanos, ter-se-á de contemplar esta realidade. Ao mesmo tempo, será necessário investir nos departamentos/secretariados de comunicação, nomeadamente na contratação de pessoal profissionalizado e na dotação dos recursos materiais necessárias.

O pouco ou muito investimento neste campo da comunicação revelará o pouco ou muito ardor evangelizador que cada um tem[3]. E, já agora, convém ter sempre presente um princípio básico: «uma boa comunicação custa tempo, dinheiro e energia. Uma má comunicação desperdiça tempo, dinheiro e energia»[4]

[1] Carlo Maria Martini, A orla do manto, Lisboa: Paulinas Editora, 1992.
[2] Mc 5, 25-34; Lc 8, 42-48.
[3] Cf. Correio de Coimbra (2016), “Somos muito sábios mas pouco audazes. Claudio Celli fala ao Correio da comunicação social da Igreja”, 5 de Maio, p. 6.
[4] Richard Thomas, An introduction to Church communication, Oxford: Lynx Communications, 1994, p. 19.

 

 

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