A laicidade merece respeito

laicismo
@Ixène 2014 | Terror na República. Aiiiiiiiii. Meu Deus, um presépio!!

Já sabíamos que rezar é uma actividade perigosa com consequências imprevisíveis. S. Francisco de Assis, S. Tomás Moro, S. Inácio de Loyola, S. Teresa de Ávila, Madre Teresa de Calcutá e S. João Paulo II, só para nomear alguns, atestam que a prática do exercício espiritual gera tensões e alterações de ordem política, social e religiosa. Mas ainda não estávamos avisados do potencial de perigosidade da oração do Pai Nosso, quando apresentada sob a forma de publicidade.

Porém, e segundo as três maiores cadeias de cinema da Grã-Bretanha, a passagem de tal anúncio, enquanto se comem umas pipocas e se bebem uns refrigerantes, “traz o risco de perturbar, ou ofender, audiências”. Razões pelas quais foi negada a passagem do anúncio nas salas de cinema. A proibição foi classificada pelo Primeiro Ministro inglês David Cameron como “ridícula”, o Presidente de Londres, Boris Johnson, apelidou de “ultrajante” e, — por quem Deus nos avisa! —, o acérrimo defensor e promotor do ateísmo, Richard Dawkins, tuitou que se trata de uma violação da liberdade de expressão. A Igreja de Inglaterra (Anglicana), autora do anúncio, manifestou-se “desconcertada” com a decisão qualificando de “bastante tola” e advertindo sobre o “efeito assustador” na liberdade de expressão.

Também não é propriamente uma novidade a ameaça à paz política, social e religiosa que constituiu a celebração do nascimento de Jesus e a sua representação no presépio. Nada de novo debaixo do sol. Rezam as crónicas que há pouco mais de 2000 anos o nascimento de um menino em Belém, na Palestina, de seu nome Jesus, filho de Maria e José, terá perturbado o rei Herodes. O monarca ao ouvir falar do cachopo como “o rei dos judeus” e depois de os Magos lhe terem feito figas, decidiu cortar o mal pela raiz e “matar todos os meninos de Belém e de todo o seu território, da idade de dois anos para baixo” (Mt 2, 16). Herodes não foi só um perverso e sanguinário com requintes de malvadez, de quem se dizia que era preferível ser seu porco a seu filho. Bem vistas as coisas foi um visionário. Na verdade, as crianças são perigosas. Veja-se como os pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia alteraram a ordem geopolítica do seu tempo.

A notícia da decisão do director de uma escola italiana em cancelar as festividades de Natal — facto não isolado em Itália e noutros países da Europa —, por respeito a outras religiões, afigura-se, à primeira vista, como uma decisão civilizada respeitadora das sensibilidades dos que pensam e vivem de forma diferente. Mas não é! E nem se quer está em causa a laicidade, valor fundamental e em si legítimo dos estados democráticos — aliás, valor evangélico: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12, 17) — mas o laicismo. O laicismo é uma caricatura da laicidade. Uma declinação negativa, delirante e ridícula da laicidade, que sente a religião como realidade ameaçadora e reage, quase sempre por via legislativa e de modo desproporcionado, restringindo direitos humanos tão fundamentais como são os da liberdade de expressão e liberdade de religião.

A laicidade declinada positivamente é uma “laicidade justa”, para citar uma expressão cara ao papa João Paulo II e que ele definia como “o respeito de todos os tipos de fé por parte do Estado, que garante o livre exercício das actividades de culto, espirituais, culturais e caritativas das diversas comunidades”. A laicidade merece todo o respeito. Ao laicismo está reservada uma fundada e dramática ironia histórica.

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