A Igreja e a relação com os media

Há uma dimensão comunicativa do papa Francisco que ainda não foi alvo da devida atenção. Falo da relação do papa com os meios de comunicação social. Concretamente com os jornalistas.

Importa referir que o primeiro discurso de Francisco foi precisamente num encontro, por ele desejado, com os representantes dos meios de comunicação social, acreditados para a cobertura do conclave. Nesse encontro, afirmou que os mass media são “indispensáveis para narrar ao mundo os acontecimentos da história contemporânea”, agradeceu o serviço “qualificado” dos jornalistas e terminou abençoando todos os profissionais presentes. Os profissionais, com o seu faro jornalístico, intuíram desde logo que estavam perante alguém que os compreendia e respeitava profissionalmente. E não se enganaram.

Francisco não tem uma agenda demasiado preenchida para receber os jornalistas. Francisco não recusa entrevistas, mesmo quando está em viagem. Francisco não se esconde e se escuda numa muralha de silêncio perante os escândalos. Francisco não foge dos jornalistas, muito pelo contrário, vai ao encontro deles. Francisco responde a todas as perguntas incómodas e difíceis colocadas pelos jornalistas, mas que são legítimas. Francisco, ainda que nunca o tenha dito explicitamente, reconhece, como S. João Paulo II, que o jornalismo é uma tarefa em certo sentido “sagrada” para o bem de todos, “e de maneira particular para o bem das camadas mais débeis da sociedade: das crianças aos pobres, dos enfermos às pessoas marginalizadas e discriminadas”.

Francisco conquistou os jornalistas desde o primeiro momento e parece ser levado ao colo por eles. Sandro Magister, especialista em informação religiosa do semanário italiano l’Espresso, um mês após a eleição de Francisco, sustentava que “a benevolência dos media em relação ao papa Francisco” era um dos traços que caracterizavam o início do seu pontificado. Os princípios e as verdades mais incómodas da doutrina cristã continuam a ser afirmados e reafirmados, mas o efeito de “encantamento” de Francisco sobre os media permanece.

Se é verdade que, em pouco tempo, os bergoglismos — assim denominado, na Argentina, o jargão do cardeal Bergoglio,— foram absorvidos e alfabetizaram os discursos episcopais e eclesiais, no que diz respeito à relação com os media o discurso é outro. Há um medo irracional em relação aos jornalistas. Quais aves de mau agouro que nos sobrevoam e cercam na desgraça! Não tenhamos medo. Os jornalistas são seres humanos dotados de alma e razão. Apenas lidam mal com silêncio, a mentira, a fuga e não gostam de ser tratados como fotocopiadoras que reproduzem comunicados de imprensa da conveniência do emitente.

Quando um jornalista pede um comentário, uma opinião, um esclarecimento, ele está a basicamente a pedir-nos que o ajudemos a compreender um facto, um acontecimento, um escândalo, um discurso, seja o que for, para depois comunicá-lo.

Francisco reconheceu a capacidade dos jornalistas em “identificar e exprimir as expectativas e as exigências do nosso tempo, de oferecer os elementos necessários para uma leitura realidade”. Não haverá, na afirmação, o bastante de sensus fidei que mereça a nossa atenção?

[texto publicado no suplemento Igreja Viva (13.11.2014) do jornal Diário do Minho]

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