A Igreja casa de vidro

Foi há pouco mais de um ano que um distinto monsenhor, encontrando-me pela ruas de Braga, me perguntou o que estava a estudar em Roma. A resposta foi simples: Comunicação Institucional da Igreja na Pontifícia Universidade da Santa Cruz. O que eu não esperava — bem, a ser sincero, não é que fosse apanhado de surpresa — foi com a contra-pergunta: “E isso para que é que serve?” Fiquei um pouco embasbacado, respirei fundo, procurei explicar, mas penso que não o convenci nem da importância nem da utilidade.

A comunicação institucional, que em Igreja pode parecer algo dispensável e secundário, para os partidos políticos e empresas, se querem “estabelecer relações de qualidade entre a instituição e o público com quem se relacionam, adquirindo uma notoriedade social e uma imagem pública adequada aos seus fins”, é absolutamente indispensável e fundamental.

No que diz respeito à Igreja em Portugal, e aqui admito uma possível análise pessimista, esta comunicação é essencialmente feita ad hoc, pouco ou nada propositiva e proactiva, e quase sempre reactiva, — salvo raríssimas excepções que só confirmam a regra —, ou seja, estamos a falar sobretudo de comunicação de crise e de controvérsias mediáticas.

Na verdade, só se reconhece a utilidade, melhor, a necessidade da comunicação institucional da Igreja, quando rebenta um escândalo e um jornalista telefona para a cúria dioce- sana a pedir um esclarecimento, um comentário, a nossa versão dos factos. Nesse momento é o “Deus nos acuda”. O que devemos ou não dizer? Qual é a mensagem a transmitir? Respondemos através de um comunicado ou convocamos uma conferência de imprensa? Quem será o porta-voz e porquê? Estas são apenas algumas das questões e apenas uma das dimensões das quais se ocupa a comunicação institucional ou corporativa, como também é designada. Foi a pensar nestas situações de crise ou controvérsia que Yago de la Cierva, professor de comunicação preventiva e gestão de crise na Universidade de Santa Cruz, escreveu La Chiesa casa di vetro. Proposte ed esperienze di comunicazione durante le crisi e le controversie mediatiche (A Igreja casa de vidro. Propostas e experiências de comunicação durante as crises e as controvérsias mediáticas). Um manual de 439 páginas para enfrentar as situações de crise com os média e não contra eles.la_chiesa_casa_vietro_Yago_Cierva

Yago de la Cierva, um galego de 54 anos, fundou e dirigiu a agência televisiva Rome Reports, e foi director executivo e porta-voz da Jornada Mundial de Juventude de Madrid, 2011. A sua vasta experiência leva-o afirmar que

“as crises — os raios — atingem qualquer que seja o edifício, até os mais santos, e normalmente isso acontece fora dos horários de expediente. Quando se é prudente e se instala o para-raios, os raios não serão mais do que um susto”.

A obra vem colmatar uma lacuna no âmbito da comunicação institucional da Igreja, a inexistência de um manual sobre a matéria. A propósito escreve Marco Tosatti, vaticanista do quotidiano italiano “La Stampa”: “não serão poucos os bispos e cardeais que esfolheando o livro lamentar-se-ão por não ter sido escrito há mais tempo”. Pela minha parte subscrevo as primeiras linhas com que inicia o livro: “todas as pessoas que assumem alguma responsabilidade numa instituição eclesial, ou se preparam para assumir… deveriam ler este livro”.

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