A Europa do Papa Francisco

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[publicado no suplemento Igreja Viva (28.11.2014) do jornal Diário do Minho)

Foi a viagem mais rápida na história do papado. Apenas quatro horas em solo estrangeiro. Foi a primeira visita de uma papa vindo do ‘Novo Mundo’ ao coração político do ‘Velho Continente’. Foram dois discursos memoráveis e históricos. Um diante do Parlamento Europeu, outro no Conselho da Europa. Discursos que, nos próximos dias, merecem ser analisados a partir de várias perspectivas: antropológica, ética, política, diplomática, religiosa, económica e social. Discursos que arrancaram aplausos dos eurodeputados, mesmo quando o Papa se referiu às “crianças mortas antes de nascer”.

Francisco traçou um diagnóstico preocupante da Europa. Uma Europa “ferida e cansada”, num mundo cada vez menos “eurocêntrico”. Uma “Europa um pouco envelhecida e a sentir-se menos protagonista num contexto que frequentemente a olha com indiferença, desconfiança e, por vezes, com suspeita”. “Uma Europa avó que já não é fecunda nem vivaz” onde os “grandes ideais que inspiraram a Europa parecem ter perdido a sua força de atracção, em favor do tecnicismo burocrático das suas instituições” afirmou o Papa. “Onde está o teu vigor? Onde está aquela tensão ideal que animou e fez grande a tua história?” foram algumas das interrogações que o pontífice colocou à Europa no discurso dirigido ao Conselho Europeu.

O momento mais emotivo e forte dos discursos foi quando o Papa se referiu à questão migratória: “Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério!” Nas últimas duas décadas estima-se que já morreram 20 mil pessoas na tentativa de chegarem à Europa.

Segundo Francisco, na origem deste quadro problemático e até dramático está uma visão do homem como sujeito económico e/ou “uma mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado, de modo que a vida (…) quando deixa de ser funcional para esse mecanismo, é descartada sem muitas delongas”. A par desta visão “uma opulência actualmente insustentável e muitas vezes indiferente ao mundo circundante, sobretudo dos mais pobres”. Não é de estranhar, portanto, que no centro do debate político estejam as questões técnicas e económicas “em detrimento de uma orientação antropológica”. A solução, segundo o Papa, passa pelo regresso às origens, ao “ambicioso projecto político” dos Pais fundadores da Europa, ou seja, “a confiança no homem, não tanto como cidadão ou como sujeito económico, mas no homem como pessoa dotada de uma dignidade transcendente”. Sem esta abertura à “dimensão transcendente da vida” a Europa corre “o risco de perder a sua própria alma e também aquele ‘espírito humanista’ que naturalmente ama e defende”. Em última instância perderá a sua relevância geopolítica.

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Uma nota final. Apesar de todos os esforços pessoais do Papa João Paulo II e da diplomacia Vaticana prevaleceu a ausência de qualquer referência às origens cristãs da Europa no preâmbulo da Constituição da União Europeia. Na altura, o cardeal Roberto Tucci considerou a ausência uma “consequência do secularismo e da cobardia”. Não por acaso o Papa concluiu o discurso apelando à Europa que abraçasse com coragem o seu passado e olhasse com confiança o seu futuro, isto se quer viver “plenamente e com esperança o seu presente”.

Mudará a Europa de rumo depois dos discursos do Papa Francisco?

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